“Diferente do que se via no passado, em que o desenvolvimento da infraestrutura do país era responsabilidade exclusiva do Estado, com os investimentos seguindo um plano de expansão com forte influência política e muito volátil em função da disponibilidade de recursos, atualmente, como boa parte dos ativos está nas mãos da iniciativa privada, há também a alavanca do plano de negócio dos diversos investidores, concessionárias e gestores, e da sinergia entre setores interdependentes para geração de receita e crescimento”, afirma André Estêvão Silva, diretor executivo da HUESKER Brasil.
Nos próximos quatro anos, o Brasil viverá um ciclo histórico de investimentos em infraestrutura, com destaque para o setor de transportes, que concentra nove das dez obras mais estratégicas, complexas e de maior aporte financeiro previstas até 2030. Esse movimento reflete a necessidade de superar gargalos logísticos e ampliar a competitividade nacional, ao mesmo tempo em que a sustentabilidade e os critérios ESG passam a ter papel relevante, pautando os projetos com peso equivalente ao da viabilidade técnica e econômica.
Analisando esse contexto sob a ótica da engenharia civil, este artigo traz uma entrevista exclusiva com André Estêvão Silva. Engenheiro civil formado pelo ITA, ex-presidente da Associação Brasileira de Geossintéticos e com quase 30 anos de atuação na HUESKER, reúne experiência em geotecnia, gestão e infraestrutura. É dessa trajetória que traz a visão analítica das tendências e desafios para o cenário brasileiro.

Transportes integrados: avanços e desafios da mobilidade no Brasil
“A infraestrutura de mobilidade e transporte no Brasil já é bastante consolidada e suficiente para apoiar os diversos setores que movimentam a economia, mas ainda existe necessidade de otimização, com novos projetos. Boa parte deles já está em planejamento, tanto na iniciativa privada, quanto em um plano de investimento público com o mesmo fim: aumentar a capacidade do Brasil de dar vazão à sua produção.
Nas últimas décadas, o país avançou na integração entre diferentes modais de transporte. Portos passaram a se conectar diretamente a rodovias e ferrovias, e terminais aeroportuários importantes já se integram aos sistemas de mobilidade urbana. Essa cobertura é recente e representa progresso, mas o custo de transporte continua alto e há necessidade de maior densificação e integração de canais de escoamento. Modalidades como a aquaviária seguem pouco exploradas, e certas regiões ainda carecem de infraestrutura. O espaço para novos investimentos permanece amplo, com potencial de impacto positivo na engenharia e em setores estratégicos da economia”.

Tecnologia e investimento direto: a nova face da mineração
“A mineração é um catalisador para a inovação tecnológica em diversos setores, como a engenharia. Talvez seja a indústria que mais evolui e com maior agilidade, ganhando em volume e velocidade no desenvolvimento de novos recursos.
O modelo atual adotado pelas grandes empresas de mineração no Brasil exemplifica o protagonismo deste setor, que hoje assume responsabilidade estratégica sobre a sua logística: elas próprias têm investido em infraestrutura de transporte para escoamento e abastecimento, sem depender de entidades públicas ou privadas. Seja em portos, ferrovias ou rodovias, a adequação e até novas estruturas são financiadas diretamente pelas mineradoras”.

Sustentabilidade e ESG: os novos pilares das grandes obras
Para André Estêvão Silva, sustentabilidade e ESG constituem os principais desafios e tendências que pautarão o futuro das grandes obras brasileiras.
“Hoje, a engenharia precisa se viabilizar não apenas sob critérios técnicos e econômicos, mas também atender a exigências ambientais e sociais cada vez mais rigorosas. Esse novo cenário redefine prioridades e exige soluções inovadoras, capazes de equilibrar eficiência, impacto ambiental e responsabilidade social.
As grandes obras no Brasil estão cada vez mais inseridas em ambientes naturais, fora de áreas urbanas conurbadas e antropizadas. Isso amplia a complexidade dos projetos, que precisam respeitar cadernos de obrigações ambientais e de ESG. Essa variável pode elevar custos e limitar soluções, mas também impulsiona a inovação. O desafio aumenta, mas a capacidade da engenharia em lidar com ele também cresce. O setor vem acumulando experiência em superar barreiras técnicas e ambientais, transformando restrições em oportunidades de aprimoramento.
Além disso, os projetos precisam considerar impactos climáticos e a resiliência frente a eventos extremos, como chuvas intensas. Por exemplo, soluções como muros de concreto enfrentam limitações executivas sob essas condições, enquanto sistemas com geossintéticos permitem execução mesmo sob intempéries”.

Geossintéticos e ganhos ambientais
“As opções de solução técnica envolvendo geossintéticos oferecem um ganho do ponto de vista ambiental em relação a outras alternativas, particularmente naquele que é um dos índices de avaliação de sustentabilidade, que é a emissão de CO2.
Tecnologias como o uso de geogrelhas em sistemas de solo reforçado para a construção de muros de contenção exemplificam como é possível executar projetos com menor consumo de recursos naturais, menos energia e menor demanda de transporte. Ainda, a cadeia produtiva dos geossintéticos é relativamente sustentável, exigindo pouco recurso natural e reduzindo a pegada de carbono.
Na prática, isso significa obras com volumes menores de materiais diversos e menor impacto ambiental nos mais diversos setores”.
ESG como critério de qualificação e legado
Segundo André, a preocupação com sustentabilidade e bem-estar social já influencia fortemente decisões de investimento e contratação. Projetos alinhados a critérios ESG tendem a ser priorizados tanto por investidores quanto por entidades regulatórias. Isso significa que o ESG deixou de ser diferencial e passou a ser requisito.
“Novos projetos de infraestrutura já exigem que as empresas participantes tenham práticas formais de ESG para se qualificarem em licitações. Essa tendência valoriza marcas comprometidas com sustentabilidade e amplia o acesso a linhas de crédito específicas. Além do ganho de imagem, há benefícios concretos para o meio ambiente e para a sociedade, criando um legado positivo”.
Segundo o executivo, o resultado é um novo paradigma: além de serem viáveis técnica e economicamente, as obras de infraestrutura precisam ser também social e ambientalmente responsáveis.

Geossintéticos e inovação: tendências emergentes
Para André Estêvão Silva, o futuro das grandes obras brasileiras será marcado por duas forças principais: a expansão do uso de geossintéticos em aplicações cada vez mais diversas e a consolidação da digitalização como requisito indispensável.
“Essas tendências refletem a pressão por sustentabilidade, eficiência e inovação, moldando os projetos de engenharia em direção a soluções mais inteligentes e responsáveis.
As soluções tradicionais com geossintéticos já estão consolidadas no mercado de infraestrutura e devem crescer na mesma escala dos investimentos previstos. Mas há um outro movimento importante: o uso de aplicações ainda pouco usuais, com caráter eminentemente sustentável.
Um exemplo é o uso de geocompostos que atuam como barreira de contaminantes aplicados em pátios de limpeza de linhas ferroviárias, áreas onde há extração de óleos e agentes tóxicos. Esses geocompostos selam o solo e evitam que poluentes atinjam o meio ambiente. Essa solução, ainda pouco explorada no Brasil, é um exemplo de como os geossintéticos serão cada vez mais aplicados para mitigar questões de passivos relacionados à execução da obra ou à própria operação do projeto.
Outro caso de solução menos óbvia é o uso de geoformas na contenção e gestão de lamas em perfurações e túneis. São aplicações que ampliam o papel dos geossintéticos, oferecendo soluções técnicas fora do contexto tradicional e respondendo à crescente pressão por sustentabilidade”.

Digitalização como requisito
“A digitalização já faz parte do cotidiano das obras de infraestrutura, com ferramentas como BIM, drones e sensores”. Para André, o interesse por tecnologia só tende a crescer, impulsionado por fatores como otimização de processos, redução de custos, agilidade na execução e menor necessidade de mão de obra.
Nos projetos, a digitalização também facilita o controle e a integração entre diferentes players, como projetistas, executores e supervisores, agilizando o andamento e reduzindo falhas. “O ritmo da digitalização é muito veloz, e o que hoje é visto como diferencial rapidamente se tornará exigência”.
Inovação como cultura permanente
“O interesse por novas tecnologias aplicadas aos projetos nunca foi tão grande. A cultura da inovação está cada vez mais consolidada, impulsionando soluções mais sustentáveis e menos onerosas. Em paralelo, a popularização de ferramentas digitais, inteligência artificial e globalização favorecem o desenvolvimento ágil e com menor custo”.
Para André, a capacidade de trabalhar com tecnologia de ponta e inovar é uma habilidade que será cada vez mais requerida de profissionais do setor de infraestrutura. “O futuro das grandes obras será definido pela combinação entre soluções técnicas sustentáveis, como os geossintéticos, e ferramentas digitais que ampliam eficiência e integração. Esse é o caminho para que o Brasil avance em competitividade e qualidade em seus projetos de engenharia”, conclui o executivo.

