Por João Carlos de Guimarães Gomes – CEO do Infranews
O descarrilamento de uma composição da MRS, que impactou diretamente a operação do Expresso Turístico da CPTM, evidencia novamente um dos maiores gargalos históricos da malha ferroviária brasileira: a convivência operacional entre transporte de cargas e passageiros na mesma infraestrutura ferroviária.
Esse modelo operacional gera conflitos permanentes de prioridade de circulação, manutenção, janela operacional, gestão de risco e disponibilidade da via. Diferentemente de países que possuem corredores segregados para passageiros e cargas, o Brasil ainda opera grande parte de sua malha ferroviária compartilhando ativos entre operações com características completamente distintas.
O transporte de carga exige foco em produtividade logística, aumento de tonelagem, composição longa, velocidade operacional compatível com carga pesada e máxima eficiência de circulação. Já o transporte de passageiros exige alta confiabilidade, previsibilidade, segurança operacional rigorosa, baixa tolerância a interrupções e elevado padrão de regularidade.
Quando ambos convivem na mesma malha, os conflitos tornam-se inevitáveis. Um incidente operacional em carga rapidamente impacta passageiros. Da mesma forma, janelas urbanas e restrições operacionais de passageiros limitam produtividade logística ferroviária.
O problema se agrava porque grande parte da infraestrutura ferroviária brasileira foi construída há décadas, com geometria limitada, baixa capacidade de cruzamento, restrições urbanas e investimentos historicamente insuficientes em segregação operacional.
O avanço dos trens regionais, turísticos e metropolitanos exigirá cada vez mais uma discussão madura sobre segregação de malhas, ampliação de capacidade, novos pátios, sinalização moderna e duplicações ferroviárias.
Sem isso, continuaremos convivendo com um sistema ferroviário híbrido operacionalmente frágil, onde qualquer ocorrência gera efeito cascata sobre toda a operação.
O BRASIL CONTINUA COM PRESSA DE OBRAS PRONTAS.
