Trabalhadores de portos brasileiros vão precisar lidar, cada vez mais, com máquinas que fazem parte do trabalho braçal. Robôs, sistemas automatizados e ferramentas de IA já operam em terminais espalhados pelo país, e essa presença cresce mais rápido do que as regras que organizam as relações de trabalho dentro dos portos.
O tema ganhou espaço em um congresso sobre direito marítimo e portuário realizado em Santos, promovido pela ABDM – Associação Brasileira de Direito Marítimo.
Uma legislação pensada para outra época
A base das leis trabalhistas aplicadas hoje aos portos foi construída quando a operação dependia quase exclusivamente de mão de obra humana. Com a chegada de guindastes automatizados, sistemas de agendamento remoto e equipamentos guiados por sensores, cresce a pressão para que as normas acompanhem essa realidade para equilibrar a proteção ao trabalhador com a incorporação dessas ferramentas nas operações diárias.
Um dos pontos centrais do debate foi a necessidade de preparar quem já trabalha nos portos para funções que exigem outro tipo de conhecimento técnico.
Entidades ligadas à gestão de mão de obra portuária, como o OGMO, apresentaram dados sobre programas de treinamento voltados a normas de segurança e operação de equipamentos, incluindo capacitações específicas para tecnologias recém-incorporadas pelos terminais. Entre as frentes discutidas para preparar a força de trabalho portuária estão:
- Cursos técnicos voltados à operação de equipamentos automatizados;
- Treinamentos periódicos sobre normas de segurança do trabalho;
- Programas de renovação e ingresso de novos trabalhadores no quadro ativo;
- Centros de simulação para testar tecnologias antes da aplicação real;
- Negociação coletiva como instrumento de adaptação.
A negociação coletiva também apareceu como caminho para organizar a transição dentro dos portos. A ideia é que sindicatos e empregadores discutam, com antecedência, como distribuir tarefas e responsabilidades à medida que sistemas automatizados assumem funções antes exercidas por pessoas. Representantes de categorias como conferentes portuários mencionaram exemplos já em uso, incluindo aplicativos que permitem que trabalhadores façam sua escala de trabalho sem precisar comparecer presencialmente aos pontos de agendamento.
Comparações com outros setores da economia
Durante o encontro, participantes recorreram a exemplos de empresas que perderam espaço no mercado por não se adaptarem a mudanças tecnológicas em seus respectivos ramos, reforçando o argumento de que o setor portuário não pode ignorar o ritmo das transformações em curso. A comparação buscou ilustrar o risco de manter modelos de operação e de gestão de pessoal defasados diante de tecnologias já disponíveis.
Informações do Santa Portal.
Perguntas frequentes
1 – A automação vai substituir trabalhadores portuários? Não de forma imediata e generalizada. A tendência apontada é de redução de tarefas repetitivas e aumento da demanda por profissionais qualificados para lidar com sistemas automatizados.
2 – Por que a legislação trabalhista precisa mudar? Porque as normas atuais foram criadas em um cenário sem a presença de robôs, IA e sistemas remotos de gestão de escala, o que gera lacunas na regulação dessas atividades.
3 – Como a qualificação profissional se conecta a essa mudança? Programas de treinamento em segurança, operação de equipamentos e novas tecnologias são apontados como caminho para que trabalhadores portuários se mantenham ativos no mercado diante da automação.
