O Brasil vive um ciclo histórico de investimentos em infraestrutura ferroviária, considerado o maior das últimas décadas. A Política Nacional de Outorgas Ferroviárias prevê até 2030 aportes diretos de mais de R$ 140 bilhões e até R$ 656 bilhões em recursos totais. Após décadas de baixo investimento e manutenção insuficiente, a malha ferroviária chegou a um ponto crítico, exigindo modernização para atender às demandas atuais.
A expansão de corredores logísticos, a recuperação de trechos degradados e a integração entre modais — portos, rodovias e ferrovias — são respostas à dependência excessiva do transporte rodoviário, que concentra cerca de 65% das cargas nacionais. Essa concentração gera custos elevados, maior desgaste das rodovias e impactos ambientais significativos, tornando urgente a diversificação da matriz de transporte.
O novo ciclo ferroviário busca aumentar a competitividade, reduzir custos de escoamento e atender às crescentes demandas do agronegócio e da mineração. Para isso, é preciso superar desafios estruturais: padronização técnica, sustentabilidade ambiental e viabilidade econômica.

Geossintéticos: inovação traz sustentabilidade à engenharia ferroviária
Nesse cenário, tecnologias inovadoras ganham espaço. Entre elas, os geossintéticos vêm transformando a engenharia ferroviária ao interagir com o solo, melhorar o desempenho estrutural e tornar a execução das obras mais rápida e econômica.
Além de eficiência técnica, oferecem benefícios ambientais: reduzem a necessidade de materiais convencionais, diminuem emissões de CO₂ e atuam como barreiras contra contaminação do solo e das águas subterrâneas.
A indústria evolui continuamente, desenvolvendo materiais para diferentes aplicações:
Reforço de lastro: geogrelhas e geotêxteis não tecidos aumentam a vida útil da via férrea.
Aterros sobre solos moles: geotêxteis tecidos e geogrelhas atuam como reforço basal garantindo estabilidade estrutural.
Fundações profundas: geogrelhas e colunas encamisadas distribuem cargas e reduzem recalques.
Aterros reforçados: geogrelhas estruturam contenções e encontros de pontes.
Aplicações especiais: geocompostos impermeabilizam túneis e protegem águas subterrâneas.
Soluções para o entorno: geotêxteis e geogrelhas reforçam estradas temporárias e bacias de retenção.

Ferronorte: geogrelhas viabilizam implantação em trecho com solos moles
No trecho ferroviário do Rio Laje da Ferronorte, em Chapadão do Sul (MS), foi necessário construir um aterro de até 9 m sobre solo extremamente mole e saturado, com profundidade de 12 m.
A solução inicial com drenos verticais não garantiria estabilidade nem prazos adequados, levando à adoção de um aterro sobre estacas. Estacas do tipo Alluvial Anker, espaçadas em 1,35 m e 1,80 m, receberam capitéis pré-moldados de concreto.
Para distribuir as cargas entre os capitéis e suportar o aterro sem recorrer a lajes de concreto armado, foi utilizada a geogrelha Fortrac® 400/150-20, com resistência de 400 kN/m na direção principal e baixo nível de deformação por fluência. Essa característica foi decisiva para garantir estabilidade estrutural e longa vida útil da ferrovia. Com instalação simples e rápida, o uso do geossintético reduziu custos, acelerou o cronograma e assegurou desempenho confiável em um terreno altamente desafiador.

Rebaixamento de linha férrea em área urbana
O rebaixamento da linha férrea em Maringá (PR) integrou o projeto Novo Centro, voltado à revitalização urbana e à separação definitiva entre ferrovia e tráfego da região central. A primeira fase havia sido feita com falso túnel em concreto, mas na segunda etapa, de cerca de 6 km, optou-se por vala aberta com contenções laterais de até 10 m de altura. Essa solução reduziu custos, melhorou a integração paisagística e permitiu manter a operação da ferrovia durante a obra.
O sistema de contenção escolhido foi o MurosTerrae®, em solo reforçado com geogrelhas Fortrac e blocos segmentais. As geogrelhas foram especificadas com diferentes níveis de rigidez (260 a 800 kN/m), garantindo deformabilidade controlada e baixa suscetibilidade à fluência. Essa variação permitiu otimizar o consumo de material, posicionando cada camada conforme a solicitação estrutural. Os blocos Terrae, com resistência de 12 MPa, asseguraram estabilidade e estética.
A solução suportou cargas elevadas, inclusive de cinco viadutos apoiados diretamente sobre o muro, com sobrecarga de 200 kN/m². O uso de solo local como aterro reduziu transporte e bota-fora, acelerando a execução e tornando o projeto mais sustentável.
A produtividade superou 120 m² de face acabada por dia, resultando em uma obra eficiente, integrada ao ambiente urbano e valorizada pela cidade.

Reforço de base sustentável na transposição da linha Belgrano Norte
Na obra de transposição da Linha Belgrano Norte, em Buenos Aires, o desafio era deslocar quase 3 km de ferrovias sobre terrenos de baixíssima capacidade de suporte, formados por antigos aterros heterogêneos. O projeto original previa remoção de parte desse solo, mas a solução mostrou-se inviável e arriscada. A alternativa adotada foi o uso do geotêxtil Basetrac® Woven PP 45/45 UV, que além de separar e filtrar, reforçou o subleito ferroviário e estabilizou o pavimento.
Graças ao elevado módulo de rigidez à tração (>45 kN/m em ambas as direções, ruptura <15%), o Basetrac Woven criou uma plataforma estável para as camadas superiores, permitindo reduzir substancialmente a espessura da base do solo selecionado. Essa otimização diminuiu o volume de terraplenagem, os custos e o tempo de execução, além de reduzir o impacto ambiental ao evitar movimentações excessivas de terra e transporte de materiais.
Mais de 40.000 m² de geotêxtil foram instalados com rapidez e simplicidade, garantindo desempenho confiável da ferrovia e prolongada vida útil da estrutura.

Reforço de via férrea com emissões de carbono reduzidas
Na obra de reforço da via férrea permanente em um trecho dentro do Terminal Integrador Portuário Luiz Antônio Mesquita (TIPLAM), em Santos/SP, o desafio era estabilizar o subleito em solo de baixa capacidade de suporte sem interromper o tráfego ferroviário. O estudo inicial indicava a necessidade de uma base de 40 cm, o que implicaria em grande movimentação de solo e elevado impacto ambiental. A solução foi o uso das geogrelhas Basetrac Grid, combinadas com geotêxtil não tecido, que atuaram como reforço, separação e filtro.
Com elevado módulo de rigidez em baixas deformações e malha de 40×40 mm, o Basetrac Grid melhorou a interação com o lastro reciclado, permitindo reaproveitar cerca de 20.000 toneladas de material e reduzir drasticamente o volume destinado ao descarte. Essa abordagem diminuiu emissões de carbono ligadas ao transporte e disposição de resíduos, além de reduzir a espessura da base necessária. O sistema também absorveu vibrações do tráfego ferroviário e limitou recalques verticais, garantindo maior durabilidade da estrutura e menor custo de manutenção.

Reforço de lastro diminui emissões de carbono
Na renovação do pátio ferroviário da Estação Retiro, em Buenos Aires, o desafio era reforçar o subleito em solo de baixa capacidade de suporte sem interromper o serviço ferroviário. O estudo inicial previa uma base de 40 cm, mas isso exigiria grande movimentação de solo e alto impacto ambiental. A solução foi utilizar geogrelhas Basetrac Grid em conjunto com geotêxtil não tecido, permitindo reduzir a espessura da plataforma e incorporar lastro reciclado como sub-lastro.
As geogrelhas, com elevado módulo de rigidez em baixas deformações e malha de 40×40 mm, melhoraram a interação com o material reciclado, garantindo estabilidade e desempenho. Foram reaproveitadas cerca de 20.000 toneladas de lastro, restando menos de 5.000 para descarte, o que reduziu emissões de carbono ligadas ao transporte e disposição de resíduos. Além disso, o sistema absorveu vibrações do tráfego ferroviário e reduziu recalques verticais, assegurando maior durabilidade da estrutura.
Sustentabilidade como novo paradigma
Hoje, a sustentabilidade deixou de ser diferencial e tornou-se requisito em obras de engenharia. Critérios ESG orientam projetos que precisam equilibrar desempenho técnico, impacto ambiental, viabilidade econômica e responsabilidade social.
Nesse contexto, os geossintéticos assumem papel central: reduzem consumo de recursos naturais, diminuem emissões de CO₂ e oferecem soluções seguras e adaptáveis. No futuro, sua aplicação será ainda mais ampla, consolidando-os como aliados estratégicos da infraestrutura ferroviária sustentável.
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