Em Minas Gerais, Mariana guarda cicatrizes ainda abertas do desastre de 2015. Agora, moradores das comunidades de Bento Rodrigues e Camargos convivem com o temor da instalação de duas pilhas de rejeitos minerais pela mineradora Samarco. As estruturas, com altura projetada de até 221 metros, devem surgir em áreas de vegetação nativa, a menos de 300 metros de algumas moradias.
O projeto, que integra a retomada gradual das operações da empresa, coloca novamente sob os holofotes uma região marcada por um episódio que mudou para sempre a história da mineração no Brasil. E reacende o debate sobre quais limites devem ser impostos à expansão mineral em territórios traumatizados.
De acordo com reportagem publicada pela Agência Pública de jornalismo investigativo em julho de 2025, moradores de Mariana têm manifestado apreensão quanto à construção das novas pilhas de rejeito previstas pela Samarco.
Ausência regulatória e tensão local
Apresentadas como alternativa mais segura às barragens tradicionais, as pilhas de rejeito e estéril carecem de uma regulamentação federal específica. Diferentemente das barragens, essas estruturas ainda não contam com normas padronizadas que estabeleçam requisitos técnicos, critérios de distanciamento e planos de emergência.
Apesar do discurso de inovação e controle, a ausência de regras claras causa apreensão entre especialistas, órgãos ambientais e, sobretudo, entre os moradores que conhecem de perto o peso da negligência.
A Agência Nacional de Mineração já incluiu a regulamentação dessas estruturas em sua agenda para o biênio 2025-2026. Mas, enquanto as regras não chegam, a análise dos riscos segue um modelo adaptado, onde cenários de chuva extrema, intensificados pelas mudanças climáticas, ainda não recebem o devido destaque nos estudos de viabilidade e segurança.
Licença concedida sob questionamentos
Mesmo com alertas técnicos e manifestações da sociedade civil, o projeto recebeu licença ambiental concomitante do Conselho Estadual de Política Ambiental de Minas Gerais, em um modelo que as licenças prévia, de instalação e de operação são avaliadas de forma conjunta, e não em etapas sequenciais.
A aprovação veio acompanhada de condicionantes. Entre elas, medidas de proteção às comunidades, sistemas de monitoramento 24 horas e exigências complementares de informação, solicitadas inclusive pelos próprios moradores de Camargos.
O Ministério Público estadual e a Agência Nacional de Mineração foram acionados por uma ação popular que pede a suspensão temporária do licenciamento, alegando que o Estudo de Impacto Ambiental não considerou as novas realidades climáticas. A ação, em tramitação na comarca de Mariana, aponta para a necessidade de uma revisão profunda nos critérios de avaliação de risco.
Ruídos, correias e patrimônio sob pressão
O projeto não envolve apenas as gigantes estruturas de descarte. Inclui também um sistema de correias transportadoras metálicas, instaladas de forma suspensa, com operação contínua e barulho persistente. Esse sistema cruzará trechos da Estrada Real, rota turística e histórica, e passará a menos de 400 metros de uma cachoeira da região.
Com isso, além da inquietação ambiental, cresce a preocupação com os efeitos sobre o turismo e o patrimônio cultural. Desde o rompimento da barragem de Fundão, o fluxo turístico na região já apresentava retração. Agora, com as novas estruturas, os moradores temem um afastamento ainda maior de visitantes, afetando economias locais já fragilizadas.
A promessa de segurança e a dúvida da reparação
Durante a reunião de aprovação do projeto, a Samarco promete barreiras físicas naturais, sala de controle 24h e planos de contingência em caso de falhas operacionais. Mas a distância entre a promessa técnica e a confiança da comunidade continua grande.
As localidades de Bento Rodrigues e Camargos foram as primeiras atingidas em 2015. Hoje, nove anos depois, muitos moradores ainda não conseguiram retornar plenamente à vida que tinham antes da tragédia. Nesse contexto, a instalação das pilhas de rejeitos representa a sensação de que a reparação continua incompleta.
A Comissão de Atingidos pela Barragem de Fundão classificou o projeto como uma afronta. Não por falta de reconhecimento à necessidade de continuidade das operações minerais, mas por enxergar na proposta um desrespeito ao princípio de não repetição, previsto por instâncias internacionais de direitos humanos.
Do luto à luta por prevenção
As memórias de novembro de 2015 ainda ecoam em Mariana. E não há tecnologia que silencie o receio de ver o trauma se repetir. A nova geração de projetos minerais precisa nascer da escuta ativa, da ciência rigorosa e do compromisso verdadeiro com a segurança comunitária.
No caso das pilhas da Samarco, a distância mínima de algumas centenas de metros entre as estruturas e residências impõe questionamentos legítimos. O que poderia ser feito diferente? Quais parâmetros poderiam garantir mais conforto às famílias? E o mais importante, até que ponto os custos ambientais e sociais estão sendo de fato dimensionados?
Mariana exige mais que protocolos
A mineração é atividade essencial para o país. Mas em territórios marcados por tragédias recentes, é essencial que a transparência e a precaução superem a pressa por produtividade. Mariana não é apenas um ponto no mapa da mineração. É um lembrete vivo de que progresso técnico não pode substituir a prudência.
Resta acompanhar com senso crítico e empatia os desdobramentos desse projeto. E seguir cobrando das instituições públicas e privadas uma postura compatível com a responsabilidade histórica e social que o caso exige.
FAQ
1 – Por que as pilhas de rejeitos da Samarco geram tanta preocupação? Por estarem localizadas muito próximas de comunidades atingidas anteriormente por desastre ambiental e por ainda não existirem normas federais específicas para regular sua construção e operação.
2 – Qual a diferença entre barragens de rejeitos e pilhas de rejeitos? As barragens contêm lama líquida com rejeitos minerais. Já as pilhas são formações sólidas, de material descartado seco. Apesar de parecerem menos perigosas, o risco de deslizamento ou erosão permanece, sobretudo em áreas de forte relevo e chuvas intensas.
3 – O projeto pode ser paralisado judicialmente? Sim. Uma ação popular já foi ajuizada solicitando a suspensão da licença, alegando falhas no estudo ambiental, especialmente quanto à ausência de dados sobre chuvas extremas e alterações no ecossistema local.
