A publicação de edição extraordinária do Diário Oficial do Mato Grosso do Sul anunciando um pacote de licitações viárias reforçou um movimento que merece análise detida, a fragmentação de projetos de pavimentação de rodovias estaduais. Com previsão de investimentos que superam os R$ 678 milhões, a iniciativa prioriza trechos desconexos e, em muitos casos, sem integração com malhas pavimentadas já existentes. O recurso será majoritariamente financiado por meio do BNDES.
Ainda que a destinação de recursos para infraestrutura viária seja sempre bem-vinda, a opção por intervenções descontínuas e parcialmente resolutivas exige questionamentos sobre os critérios técnicos, logísticos e socioeconômicos que orientam a seleção das obras.
Investimentos em trechos pontuais
Entre os projetos destacados está a pavimentação de 54 km da rodovia MS-355, ligando os municípios de Terenos e Dois Irmãos do Buriti, com previsão de investimento superior a R$ 232 milhões. Trata-se do único caso em que a obra contempla a totalidade do trajeto proposto. Os demais empreendimentos divulgados seguem um padrão de intervenções parciais, como ocorre na MS-134, onde apenas 23 dos 82 km serão pavimentados, e na MS-316, com licitação de 38 dos 110 km planejados.
Outro exemplo é a MS-245, entre Bandeirantes e Ribas do Rio Pardo, cuja obra abrange apenas 31 dos mais de 60 km necessários para conexão com a BR-163 e com a MS-338. Em Corguinho, a rodovia MS-244 terá seu primeiro lote de 23 km iniciado, mas dependerá de nova licitação para os 23 km remanescentes até o distrito de Taboco.
A corrida contra o tempo
A coincidência entre os prazos das licitações e o ano que antecede a disputa eleitoral levanta questionamentos entre especialistas e agentes do setor de obras públicas. A abertura das propostas prevista para julho e setembro, em diversos trechos, sugere um ritmo acelerado de contratação que, muitas vezes, ocorre antes mesmo da finalização dos projetos básicos e executivos.
No caso da MS-316, por exemplo, apesar de um edital anterior ter sido aberto para elaboração dos projetos, a empresa vencedora da licitação deverá iniciar também essa etapa. A urgência na execução contrasta com a ausência de planos definitivos.
Conexões industriais e interesses empresariais
Parte das obras previstas se relaciona diretamente a empreendimentos privados em expansão no estado, como é o caso das rodovias que darão acesso às futuras fábricas de celulose da Arauco, em Inocência, e da Bracell, em Bataguassu. As conexões rodoviárias com essas unidades industriais têm sido tratadas como prioritárias, mesmo quando a extensão pavimentada ainda é limitada.
O investimento previsto para os acessos à unidade de Arauco é de cerca de R$ 26,9 milhões. Outros trechos na região também contam com recursos do banco federal, como o da MS-320, com 63 km que vão interligar a MS-377 à BR-158, com licitação já agendada.
Planejamento segmentado compromete efetividade
O modelo adotado gera interrogações, até que ponto obras viárias parciais respondem de forma eficiente às necessidades de mobilidade? Quais são os riscos de trechos asfaltados isolados não se converterem em conexões funcionais de transporte? E o que ocorre com os trechos restantes, que permanecem sem pavimentação ou previsão de intervenção?
As obras da MS-289, por exemplo, contemplarão apenas metade do trajeto entre Amambai e a MS-180. O mesmo acontece na MS-380, próxima a Ponta Porã, que teve licitação dividida em dois lotes, ou seja, a descontinuidade é uma constante.
Expectativa e cautela no setor
A compreensão é que nem toda obra precisa ser integral em seu primeiro ciclo, mas há um ponto crítico quando os investimentos priorizam segmentos isolados sem horizonte claro para continuidade. Do ponto de vista logístico, econômico e ambiental, isso compromete a relação custo-benefício.
Profissionais do setor consultados reforçam a importância de obras viárias planejadas com coerência territorial, escalonamento técnico e integração com cadeias produtivas regionais. Trechos com início e fim desconexos, mesmo que relevantes isoladamente, tendem a gerar questionamentos de ordem técnica e política.
Trechos isolados sobre planejamento
As licitações anunciadas, se concretizadas, representarão um volume considerável de obras em execução no Mato Grosso do Sul. Contudo, é essencial que os gestores públicos mantenham o foco na integração territorial, evitando obras que terminem em regiões desconectadas da malha principal. A opinião pública, o setor produtivo e os profissionais da infraestrutura merecem transparência e coerência nos critérios de seleção dos projetos financiados com recursos federais.
Perguntas Frequentes
1 – Qual a origem dos recursos anunciados para as obras? Os valores serão majoritariamente financiados por meio do BNDES, que liberou R$ 2,3 bilhões ao estado para investimentos em infraestrutura pavimentação de rodovias estaduais.
2 – Por que as obras foram divididas em trechos isolados? A justificativa oficial não foi detalhada, mas especialistas indicam que pode haver tanto razões orçamentárias quanto interesses logísticos ou eleitorais por trás das divisões.
3 – Quais os riscos desse modelo de execução por partes? Risco de ineficiência, desperdício de recursos, dificuldade de conexão entre regiões e impossibilidade de usufruto pleno da obra pela população, além de perda de sinergia com outros modais.
