O crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2025 expôs novamente a assimetria entre os principais setores produtivos do Brasil. Enquanto a agropecuária avançou com ritmo intenso, a indústria de transformação permanece estagnada, sem sinais claros de recuperação, mesmo com políticas públicas recentes. O dado é de um país que fortalece excessivamente um único vetor produtivo, em detrimento de sua base industrial, reduz sua resiliência econômica e eleva sua dependência de fatores exógenos.
Segundo o IBGE, o PIB brasileiro cresceu 1,4% entre janeiro e março. Mais de dois terços desse desempenho vieram do campo. A agropecuária, puxada por safras recordes e aumento da produtividade, cresceu 12,2% no trimestre. A indústria, por sua vez, teve queda de 0,1%, com piora nos indicadores de investimento e capacidade instalada.
O agro como centro da engrenagem produtiva
Em 2024, a cadeia do agronegócio movimentou 23,2% do PIB nacional, cerca de R$ 2,7 trilhões, segundo levantamento do CEPEA e da Confederação Nacional da Agricultura. A abrangência desse número vai além do campo, desde fabricantes de fertilizantes até prestadores de serviços e varejistas ligados à produção agropecuária.
O desempenho do setor é resultado de décadas de investimento em pesquisa, mecanização, acesso à informação e abertura de novos mercados. A atuação da Embrapa foi determinante para essa modernização. A produtividade média das lavouras brasileiras supera a de muitas economias industrializadas.
Contudo, o poder do agro começa a obscurecer uma realidade, o esvaziamento da indústria brasileira, especialmente nas áreas urbanas. A falta de articulação entre os setores produtivos e a ausência de uma política industrial coerente com a vocação regional do país agravam essa desconexão.
Indústria em rota de retração
A indústria de transformação responde atualmente por pouco mais de 10% do PIB. Na década de 1980, esse percentual ultrapassava 30%. Segundo o IBGE, o setor opera hoje 15,1% abaixo do pico registrado no terceiro trimestre de 2008. A retração é longa, gradual e estruturante.
A instabilidade cambial, a pressão de importações com preços artificialmente baixos e a baixa produtividade média contribuem para a perda de competitividade. Um estudo da CNI – Confederação Nacional da Indústria, publicado em junho de 2025, posiciona o Brasil na última colocação em um ranking de competitividade entre 17 países avaliados.
O programa Nova Indústria Brasil, lançado em 2024, destinou R$ 300 bilhões em crédito até 2026, com articulação do BNDES. No entanto, os efeitos desse esforço ainda não se refletem nos principais indicadores.
Falta de conexão entre vocações regionais e política industrial
Um dos maiores desafios para a retomada industrial brasileira está na desconexão entre vocações regionais e o desenho das políticas públicas. A indústria segue sendo tratada como um setor homogêneo, quando, na prática, o país possui potencial para desenvolver segmentos industriais sofisticados ligados à produção agropecuária, como biotecnologia, equipamentos de precisão e armazenagem.
Ao não articular cadeias produtivas verticais e ao ignorar as características locais, a reindustrialização se torna genérica e pouco eficiente. A ausência de infraestrutura logística adequada em corredores de exportação, a concentração de investimentos em eixos já saturados e a morosidade em processos de licenciamento e concessão agravam o cenário.
Energia limpa e agregação de valor
A transição energética tem sido tratada como uma oportunidade para diversificação produtiva. O Brasil possui condições técnicas e climáticas para se tornar um grande produtor de energia renovável, especialmente solar e eólica. Essa condição permitiria o desenvolvimento de indústrias intensivas em energia limpa, como as de hidrogênio verde e fertilizantes de baixo carbono.
Mesmo com potencial latente, os marcos regulatórios ainda não estimulam a cadeia produtiva completa. A lacuna entre geração e uso industrial permanece ampla. Projetos estão sendo conduzidos em silos, sem articulação com outras agendas como transporte ferroviário, armazenamento inteligente ou infraestrutura de distribuição.
Urbanização e precarização do trabalho
O esvaziamento da indústria também impacta diretamente a qualidade do emprego nas regiões urbanas. Indústrias geram postos com salários médios mais altos e relações mais estáveis. O avanço dos setores de comércio e serviços em substituição à indústria de transformação contribui para a precarização do mercado de trabalho nas cidades médias e grandes.
Sem políticas que incentivem a instalação de plantas industriais em regiões urbanas estratégicas, o resultado é um cenário de crescimento setorial sem desconcentração regional. O campo avança, mas as cidades perdem complexidade econômica e capacidade de absorver mão de obra qualificada.
Instrumentos ociosos de desenvolvimento
A dificuldade não está na ausência de instrumentos, mas no seu uso ineficiente. Ainda assim, os investimentos realizados priorizaram setores com menor efeito multiplicador.
Faltam metas públicas claras que articulem infraestrutura, indústria e inovação com base em evidências técnicas e coordenação federativa. Sem isso, programas e incentivos se diluem e se tornam pouco efetivos diante do cenário macroeconômico adverso.
FAQ
1 – A indústria brasileira está fadada a continuar perdendo espaço? Não necessariamente. O país ainda possui base produtiva, conhecimento técnico e mercado consumidor para sustentar nichos industriais modernos. O que falta é uma estratégia clara, segmentada e adaptada às realidades regionais.
2 – Por que a agroindústria não consegue puxar a reindustrialização? Porque a maioria dos investimentos ainda está centrada na exportação de commodities e na mecanização primária. Pouco se investe na transformação de produtos in natura em bens de maior valor agregado dentro do território nacional.
3 – Há algum segmento industrial com viabilidade de crescimento nos próximos anos? Sim. Setores como fertilizantes sustentáveis, biotecnologia agrícola, produção de equipamentos para energias renováveis e reciclagem de materiais críticos são áreas com potencial técnico e mercadológico.
O desequilíbrio entre agropecuária e indústria é um sinal claro de como a estrutura econômica brasileira carece de integração produtiva e visão sistêmica. Reverter esse quadro exige mais do que incentivos, requer articulação, planejamento territorial e consistência regulatória. A agricultura já provou que inovação gera resultados. A indústria, para avançar, precisa de espaço, política e ambição.
Receba as principais notícias e análises sobre infraestrutura, energia, transportes e desenvolvimento produtivo fazendo parte do nosso grupo Infranews no WhatsApp. Siga também nosso perfil no Instagram e acompanhe conteúdos diários com olhar técnico, plural e direto.
