O VLT Carioca circula pelos 28 km do Centro do Rio de Janeiro sem uma única catenária, ou seja, sem os cabos suspensos que normalmente fornecem eletricidade a sistemas de bondes e metrôs de superfície.
A alimentação elétrica vem do solo, por meio de um sistema chamado APS – Alimentação Pelo Solo, presente em cerca de 95% de toda a extensão da rede..
O terceiro trilho que só acorda quando precisa
O APS funciona com um terceiro trilho instalado entre os dois trilhos de rolamento. Esse trilho é dividido em segmentos independentes, cada um energizado somente quando o veículo está posicionado diretamente sobre ele.
Assim que o trem segue adiante, o segmento anterior é desligado automaticamente, nenhum trecho da via permanece eletrificado sem que haja um veículo sobre ele, o que elimina riscos para pedestres e para a fauna urbana.
O acionamento de cada segmento é controlado por equipamentos chamados Power Boxes, instalados em câmaras subterrâneas distribuídas ao longo de toda a rota. Esses dispositivos também identificam a presença do veículo e autorizam a energização ponto a ponto. A captação da corrente elétrica é feita por sapatas coletoras fixadas na parte inferior das composições.
Segurança com a certificação mais alta do setor ferroviário
O APS possui a certificação SIL 4, Safety Integrity Level 4, o nível máximo de integridade de segurança reconhecido para sistemas ferroviários em âmbito internacional.
Essa classificação garante que a energização dos trilhos ocorra exclusivamente em condições controladas, sem margem para falhas não previstas. É a mesma categoria de exigência aplicada a sistemas críticos como controle de aviação e processos industriais de alto risco.
Nos poucos trechos em que o APS não é aplicado, como nos AMV – Aparelhos de Mudança de Via, utilizados nas áreas de manobra, os veículos operam com energia própria, armazenada em supercapacitores. Esses dispositivos funcionam de modo semelhante a baterias de alta potência e permitem que o trem percorra os trechos sem alimentação pelo solo sem qualquer interrupção perceptível para os passageiros. A troca entre os dois modos de operação acontece de forma automática.
Quase uma década de operação contínua
O VLT Carioca opera com cerca de 1.200 Power Boxes em funcionamento, e todos passam por manutenção contínua e têm seu desempenho monitorado por indicadores operacionais. Até o momento, não foi identificada necessidade de substituição em escala, e a projeção é que os equipamentos funcionem até o fim do contrato de concessão, em 2038.
Uma infraestrutura de eletrificação sem cabos que opera em ambiente urbano denso, com alto volume de pedestres, e mantém sua integridade ao longo de quase uma década.
Por que outras cidades observam o modelo carioca
A ausência de rede aérea preserva a paisagem urbana, uma variável que pesa cada vez mais em projetos de revitalização de centros históricos e em licitações de concessões de transporte.
O sistema do Rio de Janeiro já atrai representantes de outras cidades brasileiras interessados em replicar a solução, seja pela estética urbana, seja pela integração multimodal que o VLT Carioca oferece ao conectar diferentes meios de transporte em uma só rede.
Os principais diferenciais observados por quem estuda o modelo:
- Ausência de catenária, preservando o visual e o patrimônio histórico da área central.
- Energização segura e pontual, com desligamento automático após a passagem do veículo.
- Certificação SIL 4, o mais alto padrão internacional de segurança ferroviária.
- Autonomia com supercapacitores nas áreas sem alimentação pelo solo.
- Longevidade dos equipamentos, sem substituição massiva prevista até 2038.
Fonte: Diário do Transporte.
Dúvidas sobre o sistema APS no VLT Carioca
1 – O sistema APS pode ser instalado em qualquer cidade brasileira com VLT ou bonde moderno? A tecnologia é compatível com diferentes projetos de veículo leve sobre trilhos, mas exige planejamento de infraestrutura subterrânea desde a fase de projeto. Cidades que já possuem redes aéreas instaladas enfrentariam custos de retrofitting elevados. A viabilidade depende, sobretudo, da etapa em que o projeto se encontra.
2 – Qual a diferença prática entre o APS e um sistema convencional de catenária? Na catenária, os cabos aéreos ficam permanentemente energizados ao longo de toda a extensão da via. No APS, a energia só existe no segmento exato em que o veículo está posicionado. Isso reduz a interferência visual, elimina o risco de contato acidental e permite a operação em áreas históricas ou tombadas pelo patrimônio.
3 – Os supercapacitores do VLT Carioca têm autonomia suficiente para emergências? Os supercapacitores são dimensionados para os trechos específicos sem APS, como as áreas de manobra. Não funcionam como reserva de longa duração, mas cumprem com precisão a função de cobrir esses pontos de transição, sem prejudicar a operação regular do sistema.
