O transporte público urbano no Brasil está diante de uma janela de investimentos sem precedentes em sua história recente, após um levantamento coordenado pelo BNDES, em conjunto com o Ministério das Cidades, que reuniu 187 projetos de mobilidade urbana distribuídos por 21 centros metropolitanos do país, com projeção de aplicação de R$ 434,8 bilhões até 2054.
O ENMU – Estudo Nacional de Mobilidade Urbana, considerou as 19 capitais mais populosas do Brasil. Se todos os projetos forem executados, a malha de transporte coletivo de alta capacidade no Brasil mais que dobrará, com 2.410 km de novos sistemas implantados e outros 632 km requalificados. Os sistemas contemplados incluem metrôs, trens urbanos, VLT, BRT e corredores de ônibus.
A concentração regional dos recursos
A região metropolitana de São Paulo concentra R$ 175,7 bilhões, o equivalente a 40,5% do total projetado. Rio de Janeiro aparece na sequência, com R$ 68,4 bilhões, seguida por Belo Horizonte, com R$ 35,6 bilhões.
O estado de São Paulo abriga 51 dos 187 projetos listados, sendo 41 apenas na capital, seis em Campinas e quatro na Baixada Santista, número superior aos 41 projetos previstos para toda a região Nordeste.
O projeto de maior custo individual é a implantação da Linha 16 Violeta do metrô de São Paulo, com 32 km de extensão e 25 estações. O investimento estimado inicialmente foi de R$ 27 bilhões, valor que pode chegar a R$ 38 bilhões após a fase de consulta pública.
O que está acordado?
Com base em dados de setembro de 2025, o levantamento classifica 134 iniciativas, 72% do total, como projetos que “requerem ser desenvolvidos”. Apenas 15 estão atualizados.
Em termos de detalhamento técnico, 140 projetos, quase 75% da lista, estão classificados como “concepção geral”, ou seja, uma ideia inicial sem projeto desenvolvido. Somente sete chegaram ao estágio de projeto executivo, condição mínima para execução. Desses, apenas um está concluído: a extensão do BRT Metropolitano de Belém, inaugurada em dezembro de 2025.
A receita operacional estimada para os 187 projetos fica em torno de R$ 98 bilhões, com base nas tarifas vigentes em cada região. A diferença entre esse valor e o total necessário é de ao menos R$ 299 bilhões, quantia que precisará vir de alguma combinação entre recursos públicos, concessões e financiamentos estruturados.
O BNDES estuda a criação de um instrumento financeiro nos moldes do FAR, Fundo de Arrendamento Residencial, gerido pela Caixa Econômica Federal e utilizado no Minha Casa, Minha Vida. A ideia é desvincular a liberação de recursos de projetos individuais, reduzindo a paralisação de obras por problemas pontuais como licenças ambientais ou acidentes de percurso.
No modelo atual, um contratempo em um projeto específico congela os recursos daquele contrato inteiro. O modelo alternativo concentraria os valores e os distribuiria conforme o andamento de cada frente.
Os projetos também atraem interesse de investidores internacionais, inclusive de empresas com operações em outros países da América do Sul, que monitoram o regime jurídico brasileiro antes de comprometer capital em contratos de 20 a 30 anos.
Além do transporte
O ENMU representa um passo importante na organização do setor, mas especialistas apontam que projetos de mobilidade urbana eficazes precisam ir além das vias e dos veículos. Integração de pagamentos entre municípios, padrões de calçadas compatíveis com os ônibus e previsão de espaço para eletrificação futura da frota são questões que a execução isolada de cada projeto pode deixar de fora.
A Prefeitura de São Paulo, por exemplo, já assumiu dois terços do custo da eletrificação da frota de ônibus. Nem todas as cidades têm essa capacidade, mas os projetos podem, desde já, prever infraestrutura compatível com essa atualização no futuro.
Há ainda o debate sobre a tarifa zero. A isenção total para usuários custaria entre R$ 75 bilhões e R$ 80 bilhões por ano, o que levanta questões sobre a atratividade das concessões privadas em um modelo onde 100% da receita viria de repasses governamentais.
Informações publicadas pelo portal Valor Econômico.
Tudo que você queria saber sobre mobilidade urbana
1. O que é o ENMU e por que ele importa para o setor de infraestrutura? OENMU, é o primeiro levantamento sistematizado de projetos de transporte público de alta capacidade em escala nacional, coordenado pelo BNDES com o Ministério das Cidades. Ele organiza em um único documento 187 projetos em 21 regiões metropolitanas, criando uma base de referência para o planejamento de investimentos no setor até 2054.
2. Quais cidades concentram os maiores volumes de investimento previstos? São Paulo lidera com R$ 175,7 bilhões projetados, seguida por Rio de Janeiro (R$ 68,4 bilhões) e Belo Horizonte (R$ 35,6 bilhões). Juntas, essas três regiões metropolitanas somam mais de 64% do total previsto pelo estudo.
3. Como o financiamento dos projetos deve funcionar na prática? O modelo ainda está em discussão entre o BNDES, o Ministério das Cidades e o Ministério da Fazenda. A tendência é combinar recursos públicos com concessões privadas, mas a equação de tarifas, subsídios e retorno ao investidor ainda não foi fechada.
