O ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico acionou, em junho de 2026, um plano emergencial para conter o excesso de geração de energia elétrica na rede brasileira. A operação, realizada num domingo de feriado prolongado, foi a primeira do tipo e envolveu a gestão de cerca de 1.000 MW durante quatro horas consecutivas, num cenário em que a produção superou a capacidade de consumo do SIN (Sistema Interligado Nacional).
O que é curtailmen?
O termo curtailment descreve o corte ou a limitação temporária da geração de energia quando a oferta supera a demanda, ou quando o sistema de transmissão não consegue absorver o que foi produzido.
A prática já é comum no setor elétrico em países com alta produção de fontes renováveis, a situação ganhou contornos práticos com a expansão acelerada da energia solar e da energia eólica nos últimos anos.
Em períodos de baixa demanda industrial e comercial, como feriados prolongados, os painéis solares instalados em residências e pequenos estabelecimentos continuam gerando eletricidade, sem que haja consumo suficiente. Esse desequilíbrio precisa ser corrigido rapidamente para evitar instabilidades na infraestrutura elétrica.
Minigeração distribuída
Diferentemente das grandes usinas, as micro e minigeração, não são conectadas diretamente à rede de transmissão e despachadas pelo ONS. Os sistemas solares instalados em telhados residenciais e pequenos empreendimentos estão vinculados às redes das distribuidoras locais.
Essa descentralização torna o controle mais complexo. O ONS não tem comando direto sobre essas unidades, o que exige a intermediação das distribuidoras de energia para executar as manobras necessárias. No episódio de junho, as distribuidoras foram comunicadas com um dia de antecedência e realizaram os ajustes operacionais dentro do prazo previsto.
Fatores que convergiram para o excedente de energia
- Feriado prolongado, pela baixa demanda industrial e comercial.
- Alta geração solar distribuída em dia ensolarado.
- Ausência de mecanismos de armazenamento em escala suficiente para absorver o excedente.
- Limitações de escoamento via rede de transmissão em tempo real.
O plano da operação
A ação executada pelo ONS está prevista no Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição, aprovado pela ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica em novembro de 2025.
O documento formalizou um protocolo que autoriza as distribuidoras a reduzir a geração de energia conectada às suas redes, inclusive de pequenas usinas fora do controle centralizado do operador nacional.
A ANEEL e o ONS coordenaram, em tempo real, as ações com as distribuidoras, que realizaram as manobras dentro da janela operacional de quatro horas. Segundo o operador, o SIN manteve equilíbrio durante todo o período, o que valida o protocolo como ferramenta de gestão da rede elétrica nacional.
Um sinal para a infraestrutura energética
Com a capacidade instalada de energia solar no Brasil crescendo consistentemente, episódios de excesso de geração tendem a se repetir, especialmente em fins de semana e períodos de temperatura amena, quando o consumo de ar-condicionado cai e a atividade econômica recua.
O modelo de geração que por décadas foi centralizado e previsível convive agora com uma camada difusa, pulverizada e variável de pequenos produtores.
A resposta bem-sucedida a essa primeira operação indica que o setor elétrico brasileiro começa a criar as bases operacionais para lidar com essa realidade, sem depender apenas de grandes investimentos em armazenamento ou expansão de linhas de transmissão.
Fonte: Poder360.
Perguntas frequentes
1. O curtailment prejudica os consumidores de energia solar? O curtailment afeta os produtores de geração distribuída nos momentos em que sua produção é limitada, e não os consumidores finais diretamente. Contudo, produtores que injetam energia na rede podem deixar de receber créditos em períodos de corte. A regulamentação da ANEEL prevê protocolos específicos para esses casos, mas as condições de compensação ainda são objeto de debate regulatório.
2. Por que o Brasil não usa baterias para armazenar o excedente? O armazenamento em larga escala por meio de baterias ou outros mecanismos ainda é economicamente limitado no Brasil. Os custos de implantação são elevados e a regulamentação para remuneração de serviços de flexibilidade de rede está em construção. Por isso, o ONS e a ANEEL optaram por desenvolver protocolos operacionais com as distribuidoras como solução de curto prazo.
3. Outros países já operam com curtailment regularmente? Sim. Países com alta produção de renováveis, como Alemanha, Espanha, Reino Unido e China, já utilizam o curtailment como ferramenta rotineira de gestão da rede elétrica. Nesses mercados, a prática é acompanhada de mecanismos de compensação financeira para os geradores afetados e de sistemas automáticos de despacho.
