Leilões de saneamento básico que terminaram vazios ou com uma única oferta em 2026 não indicam saída do capital privado, e sim um comprador que passou a ler o edital com lupa. Goiás, Rondônia e Paraíba concentram os casos mais comentados, mas a leitura de que a infraestrutura de água e esgoto perdeu atratividade ignora que grandes operadoras acompanharam roadshows, consultas públicas e pedidos de esclarecimento antes de decidir não apresentar proposta vinculante.
Goiás, Rondônia e Paraíba
Em Goiás, a PPP da Saneago foi dividida em três blocos, dois deles sem ofertas e o terceiro com um único interessado, inabilitado por falha na garantia de proposta, o que levou ao cancelamento do certame e à revisão da modelagem.
Em Rondônia, a concessão que reunia dezenas de municípios foi declarada deserta, apesar de um contrato de mais de três décadas e de investimentos previstos de vários bilhões de reais. Na Paraíba, a PPP de esgotamento estruturada pelo BNDES recebeu somente a proposta da Acciona, com deságio mínimo sobre a contraprestação máxima.
O dinheiro em campo
Os resultados de outras concessões pesam contra a tese de retirada. Pernambuco entregou seus dois blocos ao Pátria e ao consórcio formado por BRK e Acciona no fim de 2025, Alagoas atraiu quatro consórcios em 2021, a Copasa foi privatizada em junho de 2026 e a Sabesp mantém um programa de obras previsto até 2029.
Privatizações e projetos novos têm lógicas diferentes, é verdade, mas os números de operações bem-sucedidas não combinam com a ideia de um setor abandonado.
Quando uma empresa estuda um ativo e desiste de ofertar, a recusa costuma ser dirigida às condições daquele projeto, e não ao modelo de concessões. Os pontos que mais pesam na decisão são:
- Tarifas e mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro;
- Volume de obras exigido e fontes de financiamento disponíveis;
- Riscos regulatórios e metas de universalização;
- Passivos herdados e garantias oferecidas;
- Segurança jurídica do contrato.
A conjuntura também entra na conta, com juros altos, crédito de prazo extenso mais restrito, operadoras já comprometidas com contratos anteriores e dúvidas sobre a reforma tributária.
O teste em Maranhão
A Abcon mapeia ao menos 31 projetos em preparação, que somam cerca de R$ 66 bilhões e alcançam 631 municípios. Entre eles está o do Maranhão, estruturado pelo BNDES para 214 cidades e cerca de 6,7 milhões de pessoas, sem data definida para o leilão.
Reunir municípios tão diferentes em uma única modelagem de projetos exige cuidado com a divisão dos blocos, o subsídio cruzado, a estrutura tarifária, o tratamento dos ativos existentes, a distribuição de riscos e as competências regulatórias.
Regras mantidas, metas de 2033
O marco legal do saneamento segue de pé. A Lei 14.026/20 conserva as metas de universalização, e a Norma de Referência 8 da ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico toma como referência 99% dos domicílios com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033.
Em agosto de 2026 entrou em vigor a Norma de Referência 16, sobre contabilidade regulatória e controle patrimonial, mais uma regra a ser absorvida nas contas dos investidores.
Os próximos lotes tendem a reunir localidades mais complexas, com menor cobertura e necessidade maior de obras, e por isso a atenção recai sobre quem estrutura os projetos.
Contas que fecham e contratos que resistem a questionamentos são o que transforma interesse em proposta, e a ausência de ofertas nos leilões de 2026 funciona como um aviso nesse sentido.
Fonte de referência: Migalhas
Perguntas frequentes
1 – Leilão sem propostas quer dizer que o capital privado deixou o saneamento? Não. Concessões recentes em Pernambuco e Alagoas, a privatização da Copasa e o programa de obras da Sabesp indicam que o interesse continua, com seleção mais rigorosa dos projetos.
2 – Por que as operadoras participam das consultas e não apresentam proposta? Porque a proposta vinculante exige análise detalhada de tarifas, investimentos, financiamento, riscos regulatórios, passivos e garantias, e algumas premissas só se mostram problemáticas nessa etapa.
3 – O que os próximos projetos precisam apresentar? Modelagens com viabilidade financeira demonstrável, blocos bem divididos, regras claras de reequilíbrio e segurança jurídica, sobretudo em regiões de baixa cobertura.

