O governo de São Paulo levou a cartilha de seus projetos mais ambiciosos ao continente asiático. Com paradas na China, Coreia do Sul e Japão, a missão busca apresentar oportunidades de concessão a investidores com histórico comprovado de entrega em mobilidade urbana. Entre os projetos apresentados, está o túnel submerso entre Santos e Guarujá, considerado o maior da história da engenharia brasileira neste formato.
O cronograma oficial da visita inclui reuniões com bancos de fomento e representantes das maiores construtoras e operadoras de transporte do mundo. Nos encontros, o governo paulista expôs detalhes técnicos e jurídicos das obras disponíveis para Parcerias Público-Privadas, abrindo espaço para sugestões antes da entrega final das propostas.
Com 1,5 km de extensão total, dos quais 870 metros serão submersos, o túnel ligará as duas das cidades mais relevantes do litoral paulista. O método construtivo adotado será o chamado túnel imerso, amplamente utilizado em países da Ásia e da Europa. O sistema exige a fabricação de módulos estanques que serão colocados no leito do canal por rebocadores e soldados com precisão cirúrgica.
Edital revisado e cifras atualizadas
O edital atualizado do projeto foi republicado no início de junho de 2025. A nova versão contempla avanços nos estudos geotécnicos, ajustes nos critérios de desapropriação e uma nova data-base para os custos dos insumos. A previsão orçamentária passou de R$ 5,96 bilhões para R$ 6,8 bilhões.
O modelo de concessão adotado será via Parceria Público-Privada, com vigência de 30 anos. Está prevista a construção de três faixas para veículos, uma faixa exclusiva para Veículo Leve sobre Trilhos e ainda uma galeria para pedestres e ciclistas, o que amplia o acesso intermodal à região.
Competição entre gigantes
Durante a rodada em Pequim, o projeto foi apresentado a colossos do setor de infraestrutura, como China Communications Construction Company, China Railway Signal & Communication, China Railway Rolling Stock Corporation e o Bank of China. As empresas demonstraram grande interesse e podem formar consórcios nas próximas semanas.
Ao mesmo tempo, grupos europeus e brasileiros também monitoram de perto a movimentação. Entre os interessados, destacam-se Acciona, Mota-Engil, Webuild, Novonor e a Marquise Infraestrutura. O edital permite que consórcios se formem até 30 dias após o fim das apresentações técnicas, o que torna o mês de agosto decisivo para articulações nos bastidores.
PPPs em expansão no território paulista
O pacote apresentado em solo asiático vai além do túnel submerso. Inclui também o Trem Intercidades Sorocaba, com orçamento estimado em R$ 11,9 bilhões, e o Lote ABC–Guarulhos, que envolve as Linhas 10 e 14 da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, com previsão de investimento superior a R$ 19 bilhões.
A presença de conglomerados asiáticos em todas essas tratativas indica que o ambiente regulatório brasileiro está sendo monitorado de perto por instituições financeiras internacionais, principalmente após os ajustes promovidos nos marcos legais das concessões estaduais.
Mobilidade redimensionada na Baixada Santista
Hoje, a ligação entre Santos e Guarujá depende exclusivamente de balsas. São cerca de 23 mil veículos e 15 mil usuários não motorizados cruzando o canal todos os dias. Em horários de pico ou sob instabilidades climáticas, o tempo de espera pode ultrapassar 20 minutos. A entrega do túnel submerso deverá reduzir esse tempo para menos de dois minutos, com maior previsibilidade, segurança e fluidez.
Além da melhora logística imediata, a nova travessia dará suporte ao porto de Santos, que movimenta volumes crescentes e sofre com gargalos de acesso terrestre.
Questões ambientais e urbanas
A substituição parcial do modal fluvial motorizado por um túnel com opção ferroviária e faixa de pedestres promete reduzir as emissões de gases poluentes na região. Com menos veículos parados em filas e menos embarcações a diesel em operação contínua, a estimativa inicial aponta para queda de até 30% na emissão de CO₂ no entorno da obra.
A previsão de criação de 9 mil empregos diretos e indiretos durante a fase de construção é outro atrativo, especialmente para municípios com índices de desemprego elevados. No entanto, o tema das desapropriações ainda exige atenção, já que envolve áreas densamente povoadas e requer negociação cuidadosa para evitar paralisações.
Leilão em pauta
O leilão do túnel está previsto para ocorrer no dia 5 de setembro de 2025, com abertura dos envelopes em 1º de setembro na bolsa B3, em São Paulo. A expectativa é de alta competitividade entre os proponentes, o que pode beneficiar o Estado com propostas mais vantajosas no quesito técnico e financeiro.
A adoção do modelo de Parceria Público-Privada traz vantagens na alocação de riscos e permite maior flexibilidade na execução. Por outro lado, exige garantias robustas e capacidade operacional comprovada, o que naturalmente restringe o número de participantes aptos.
Brasil como vitrine internacional
O túnel Santos–Guarujá, mais do que uma travessia submersa, se insere em uma disputa silenciosa por protagonismo no mercado de infraestrutura latino-americano. Ao escolher apresentar seus projetos em países líderes do setor, o governo paulista demonstra intenção clara de elevar o padrão técnico e ampliar o leque de financiadores.
Esse movimento também pressiona grupos nacionais a se atualizarem tecnologicamente e a fortalecerem suas alianças estratégicas, sob pena de ficarem fora das licitações mais complexas que se desenham no horizonte do setor.
Perguntas Frequentes
1 – O que diferencia o túnel submerso Santos–Guarujá de outros projetos de travessia no Brasil? A principal inovação está na técnica de construção — o método do túnel imerso —, ainda inédito no país. Além disso, o projeto prevê múltiplos modais integrados, incluindo faixa para Veículo Leve sobre Trilhos, ciclovia e passagem de pedestres.
2 – Quais são os riscos associados à execução dessa obra? A construção submersa exige controle total sobre variáveis como sedimentação, correntes marítimas e estanqueidade. Também há risco de atraso relacionado às desapropriações e à complexidade dos estudos geotécnicos. Isso requer consórcios experientes e engenharia de precisão.
3 – Como o projeto se relaciona com o interesse internacional em infraestrutura brasileira? O Brasil tem ampliado sua visibilidade entre grandes fundos e operadoras asiáticas, especialmente após avanços regulatórios. Projetos como o túnel submerso são vistos como porta de entrada para novos contratos e ampliam a credibilidade do país no setor.
