Com a previsão de uma colheita recorde no Brasil, volta o problema na capacidade de armazenagem rural, especialmente nos polos de expansão agrícola. No Tocantins, estado integrante da região do Matopiba, conjunto formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o crescimento da produção não foi acompanhado pela estrutura necessária para recebê-la.
A capacidade total de armazenagem no Brasil é inferior a 213 milhões de toneladas, o que deixa um déficit acima de 120 milhões. Ou seja, mais de um terço da safra nacional não tem onde ser guardada.
No Tocantins, esse desequilíbrio se transforma em prejuízo. A urgência em retirar os grãos do campo, diante da ausência de armazéns, obriga muitos produtores a vender rapidamente ou manter a carga exposta ao tempo, sob risco de perda e desvalorização. A escassez de galpões também provoca concorrência direta entre soja e milho, colhidos em sequência e disputando os mesmos espaços.
[h2] Distâncias longas e improvisos custosos
Em municípios mais afastados das áreas de escoamento, os grãos chegam a percorrer até 100 km até encontrar espaço para armazenagem. Quando não encontram, sobram soluções improvisadas como silos-bolsa, caminhões estacionados e vendas forçadas a preços abaixo do mercado.
Esse improviso, além de pouco eficiente, torna-se um multiplicador de custos logísticos. O frete encarece, a margem do produtor diminui e parte do excedente é absorvida pela indústria, que por sua vez repassa o ônus à cadeia de suprimentos.
O cenário é agravado pela soja, que, por ter maior valor agregado, ocupa a prioridade nas estruturas existentes.
Falta de crédito trava soluções locais
Segundo levantamento da CNA-Confederação Nacional da Agricultura, mais de 70% dos produtores da região do Matopiba afirmam que construiriam armazéns próprios se tivessem acesso a linhas de crédito com juros menores e prazos adequados. Mas, sem incentivos concretos, muitos preferem investir em colheitadeiras ou tratores, com retorno mais imediato.
A Abramilho-Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo reforça que o crescimento da produção nas novas fronteiras agrícolas não é acompanhado pela estrutura logística básica, criando um cenário de expansão desorganizada.
Já a FAO-Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura recomenda que os países mantenham uma capacidade estática de armazenamento 20% superior à produção anual. Aplicando esse parâmetro ao Brasil, seriam necessários mais de 400 milhões de toneladas em silos e armazéns, quase o dobro da infraestrutura atual.
Cooperação ainda tímida fora do Sul
Enquanto estados do Sul do país vêm experimentando modelos colaborativos, como condomínios rurais de grãos, essa alternativa ainda engatinha no Centro-Norte. A ausência de incentivos fiscais, a burocracia para legalização fundiária e a falta de tradição cooperativista em algumas regiões tornam o modelo menos atrativo, mesmo com seu potencial de reduzir custos e riscos.
A criação de políticas públicas específicas para armazenagem descentralizada, aliada a programas regionais de financiamento com carência ajustada ao ciclo agrícola, poderia destravar a construção de estruturas em regiões-chave como o Tocantins.
FAQ – O dilema dos grãos ea falta de silos
1 – Por que o Tocantins sofre mais com a falta de armazenagem? Porque a expansão agrícola na região do Matopiba foi mais rápida que os investimentos em infraestrutura. A logística ainda é dependente de longos percursos e há poucos armazéns próximos às áreas de produção.
2 – O que acontece com os grãos quando não há onde armazenar? Muitos ficam expostos ao tempo, perdem qualidade ou precisam ser vendidos com urgência por preços baixos. Parte da carga é improvisadamente armazenada em silos-bolsa ou em caminhões.
3 – Como outros estados estão lidando com isso? Em estados do Sul, modelos como condomínios de grãos — onde produtores compartilham estruturas — já estão em prática. No Norte e Nordeste, essas iniciativas ainda são raras e demandam políticas públicas mais eficientes para ganhar escala.
