O assunto voltou ao centro do setor de infraestrutura energética nacional após o governo federal solicitar uma nova reunião do Conselho Nacional de Política Energética, ainda este ano, para deliberar sobre a continuidade das obras da usina nuclear Angra 3. A decisão foi adiada nas últimas reuniões por pedidos de vista de conselheiros, o que tem gerado incômodo entre autoridades que defendem urgência na definição do tema.
Fato novo, impasse antigo
Embora o foco da última reunião do colegiado tenha sido voltado às políticas para biocombustíveis, o governo reforçou que a agenda nuclear não pode continuar sendo postergada. O andamento de Angra 3 é considerado essencial por integrantes do Ministério de Minas e Energia, em razão da crescente demanda por energia elétrica e da presença de fatores que pressionam o consumo, como a digitalização de serviços no país.
Urânio e tecnologia sob risco
O Brasil possui condições técnicas com o domínio do ciclo completo da energia nuclear, aliado a vastas reservas de urânio, que coloca o país em posição de vantagem para suprir demandas internas e desenvolver projetos de pequeno e médio porte com maior autonomia. O risco de abandono de Angra 3 é visto por especialistas como um desperdício de recursos acumulados ao longo de quatro décadas.
As obras da terceira usina nuclear brasileira foram iniciadas na década de 1980 e, mesmo após sucessivas retomadas, encontram-se paralisadas desde 2015. Estima-se que 65% da infraestrutura esteja concluída. O valor projetado para finalização ultrapassa R$ 23 bilhões. Em contrapartida, encerrar o projeto geraria um prejuízo estimado em R$ 21 bilhões. Ainda assim, o custo para armazenar os equipamentos da usina, já adquiridos, gira em torno de R$ 200 milhões por ano.
Eletrobras e a nova equação de governança
A ENBPar passou a ser a principal responsável pela governança da Eletronuclear após a privatização da Eletrobras. Em fevereiro deste ano, a Eletrobras concluiu o processo para suspender suas obrigações de investimento na Eletronuclear. Agora, os recursos para finalização de Angra 3 deverão vir em sua maior parte de financiamentos, com a União participando com cerca de 10% por meio da nova estatal.
Capacidade instalada que poderia aliviar o sistema
Se concluída, Angra 3 terá capacidade instalada de 1.405 megawatts e geração estimada de 12 milhões de megawatts-hora por ano. Isso equivale a atender 70% da demanda total de energia elétrica do Estado carioca. O retorno em termos de suprimento seria imediato, considerando a pressão sobre o sistema nacional nos horários de pico e a previsão de crescimento do consumo industrial e digital nos próximos anos.
Apesar da mobilização do governo, o tema continua cercado de resistências. Parte do colegiado pede mais tempo para avaliar a estrutura financeira do projeto. Outros setores questionam a viabilidade da retomada sem uma diretriz clara de planejamento energético, o que pode gerar novo ciclo de paralisações.
FAQ
1 – Qual é o motivo da nova reunião extraordinária? A nova reunião foi solicitada para discutir a continuidade das obras de Angra 3 e redefinir a governança da Eletronuclear, tema adiado nas últimas sessões do CNPE por pedidos de vista.
2 – O que está em risco se a usina não for concluída? O abandono do projeto acarretaria perda de recursos já investidos, desperdício da estrutura já existente e custos anuais de armazenamento dos equipamentos. Além disso, colocaria em dúvida o uso do conhecimento técnico e das reservas de urânio do país.
3 – Quem será o principal responsável pelo financiamento da obra? A previsão é que 90% do montante necessário venha de financiamentos, enquanto os acionistas, incluindo a União por meio da ENBPar, responderão pelos 10% restantes.
