Em empreendimentos de engenharia, a praticabilidade diária costuma ser tratada como um “número de referência”, um índice teórico derivado de premissas, porém, na prática a obra é um sistema imprevisível. Quando essas condições não estão alinhadas com as premissas do plano, a produtividade contratada pode até ser coerente no papel, mas deixa de ser praticável na execução.
- O que é praticabilidade e por que ela impacta diretamente sua obra
- A abordagem da AACE
- Como apurar a praticabilidade real em campo: a adaptação da EXXATA
- Estudos de caso
- Estudo de caso 01 – Morosidade na liberação para início das atividades
- Estudo de caso 02 – Impacto do deslocamento interno durante a jornada de trabalho
- Conclusão
O que é praticabilidade e por que ela impacta diretamente sua obra
A praticabilidade representa a capacidade de execução de uma atividade nas condições efetivas do empreendimento. Em outras palavras, ela responde à pergunta: “dadas as condições de acesso, logística, organização e restrições, quanto do turno consegue, de fato, virar execução direta?”.
Esse parâmetro na elaboração do planejamento do escopo, é obtido de históricos, composições, premissas de planejamento e, muitas vezes, consolidado como parâmetro contratual. Porém, na prática a obra é um sistema vivo, condicionado por frentes disponíveis, acessos, interferências, logística, fatores humanos, decisões de supervisão e restrições da própria obra.
Dentro de contratos de construção pesada, uma jornada de trabalho raramente se converte integralmente em produção. Existe uma parcela inevitável de tempo consumida por atividades que não agregam valor diretamente ao escopo.
O ponto crítico é que esses fatores que prejudicam a praticabilidade, não são raros e determinam o “teto” de produção possível no turno. Quando o planejamento ignora (ou subestima) essa parcela inevitável de tempo não produtivo, ocorre uma não aderência entre o Contratado x Real em relação ao Faturamento Hora-Homem e consequentemente de diversas outras ferramentas de análise como Cronograma Físico-Financeiro, Faturamento, Programação Semanal etc.
A abordagem da AACE
A AACE International (Association for the Advancement of Cost Engineering) trata a produtividade como um indicador que deve ser analisado à luz das condições reais de execução. Na prática recomendada 22R-01, a produtividade é entendida como a relação entre o valor produzido e o valor investido em horas de trabalho, destacando que ganhos vêm da eliminação de desperdícios e restrições do sistema, e não de exigir que as equipes “trabalhem mais”.
A AACE diferencia os controles tradicionais de projeto, que indicam quando há desvios de custo e prazo, da medição direta da produtividade, que permite entender por que esses desvios ocorrem.
Para isso, recomenda o uso do work sampling (amostragem do trabalho), um método estatístico baseado em observações instantâneas, aleatórias e imparciais do estado de trabalho da mão de obra ao longo do turno. A proporção de observações em cada categoria representa, de forma estatística, como o tempo do processo está sendo consumido.
O método classifica as atividades em três grandes grupos: trabalho direto produtivo, trabalho indireto não produtivo e downtime, evidenciando quanto do turno efetivamente agrega valor ao escopo e quanto é consumido por atividades de não valor agregado.
Como apurar a praticabilidade real em campo: a adaptação da EXXATA
O procedimento EXXATA realiza observações instantâneas, aleatórias e impessoais ao longo do turno, classificando cada ação do trabalhador conforme Valor Agregado (VA), Não Valor Agregado (NVA), de forma geral, método mantém os princípios da AACE.

A adaptação detalha categorias típicas de perda que impactam diretamente a praticabilidade, como deslocamentos com/sem material, espera por almoxarifado, busca de informação técnica fora da área, prontidão (“à disposição”) e tempo fora da frente. Ao quantificar essas parcelas, o método evidencia quanto do turno é indisponível para execução direta, definindo o teto real de produtividade daquela frente nas condições observadas.
Um diferencial central é a comparação entre praticabilidade contratada e praticabilidade medida. Quando a produtividade exigida pelo contrato pressupõe níveis de valor agregado incompatíveis com as condições reais, o desvio deixa de ser uma percepção e passa a ser um fato mensurável. Esse enquadramento desloca a discussão de desempenho individual para condições de execução, alinhando-se ao princípio da AACE de que a produtividade é em função do sistema.
A partir do diagnóstico, a EXXATA propõe medidas mitigatórias focadas em remover restrições do processo. As ações são priorizadas, atribuídas e acompanhadas, com devolutiva rápida ao Cliente, reforçando o ciclo de medir → agir → reavaliar.

Figura 1 – Exemplo de Apuração Obtida em Campo
Dessa forma, a praticabilidade deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser um parâmetro real, capaz de sustentar decisões de gestão, revisões de planejamento e discussões contratuais com base em evidências.

Felipe Chamone é Técnico de Processos Administrativos na Faculdade de Tecnologia do SENAI (FATEC-SENAI), cursa Engenharia de Materiais no Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG). Atua como Consultor de Contratos na Exxata, possui expertise em Administração Contratual, com ênfase no acompanhamento, gestão de Claims e administração de contratos em projetos de obras de infraestrutura.
Sua experiência abrange, ainda, a análise de produtividade em projetos e desenvolvimento de soluções para a automação de processos.
Estudos de caso
Estudo de caso 01 – Morosidade na liberação para início das atividades
Em uma obra industrial, foi identificado que as equipes apresentavam baixo rendimento nas primeiras horas da jornada. A análise de campo demonstrou que a principal causa não era falha operacional, mas sim a morosidade na liberação das Permissões de Trabalho em Segurança (PTS) pela fiscalização.
Apesar de a mão de obra estar mobilizada e disponível, o início efetivo das atividades era frequentemente postergado devido a:
- Atrasos na emissão ou renovação das PTS;
- Esperas por inspeções e autorizações pela fiscalização;
- Atraso na chegada do fiscal ao local de abertura da PTS;
- Interfaces com áreas de segurança e operação.
Apuração
O tempo de espera foi observado e registrado nos Relatórios Diários de Obra (RDOs), identificando os períodos de ociosidade e sua causa. A consolidação desses registros evidenciou uma perda recorrente de horas produtivas não contempladas nas premissas contratuais.
Ações adotadas
Com base nos registros, foi possível:
- Caracterizar a ociosidade;
- Fundamentar o pleito de reconhecimento dessas horas improdutivas;
- Embasar discussões contratuais com base em fatos documentados, e não em alegações subjetivas.

Felipe Coutinho de Assis é formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), atua como Consultor de Contratos na Exxata, possuindo expertise em Administração Contratual e Claims, com ênfase no acompanhamento in loco. Já teve a oportunidade de atuar em projetos nacionais e internacionais, com foco em administração de contratos em projetos de obras de infraestrutura.
Estudo de caso 02 – Impacto do deslocamento interno durante a jornada de trabalho
Em outro empreendimento, a análise da praticabilidade revelou atividades de não valor agregado associadas ao deslocamento interno da equipe durante a jornada, especialmente para acesso a banheiros e refeitório.
O layout do canteiro previa instalações centralizadas, distantes das frentes de serviço. Como consequência:
- Longos deslocamentos para pausas fisiológicas;
- Tempo elevado gasto no trajeto até o refeitório;
- Redução expressiva do tempo efetivamente produtivo.
Apuração
O tempo de deslocamento foi medido e registrado ao longo da jornada, permitindo quantificar o impacto real dessas movimentações na produtividade diária. Ficou evidente que, embora necessários, esses deslocamentos não estavam considerados nos índices de produtividade adotados no planejamento.
Ação adotada
Diferentemente do primeiro caso, optou-se por uma solução operacional para mitigar o impacto:
- Instalação de banheiros químicos próximos às frentes de serviço;
- Adequação da logística de refeições, com fornecimento de marmitas diretamente na frente de trabalho, reduzindo deslocamentos ao refeitório.
- Essas medidas permitiram recuperar parte do tempo produtivo, melhorando a praticabilidade sem a necessidade de ajustes contratuais imediatos.
Conclusão
A praticabilidade é um fator determinante para o sucesso de uma obra, mas frequentemente negligenciado nas fases de execução. Reconhecer e mensurar os fatores que reduzem o tempo produtivo não significa aceitar ineficiência, e sim planejar e gerir com dados realistas, distinguindo claramente o que é “meta de produtividade” do que é “condição de produção”.
Por fim, quando a praticabilidade real é apurada e comparada às premissas orçadas/contratuais, a obra ganha um instrumento de análise para ajustar estratégias. Isso reduz conflitos, melhora a previsibilidade e fortalece decisões sobre custo e prazo. Em síntese: medir praticabilidade é viabilizar uma execução mais transparente, aproximando planejamento e campo com o que realmente importa: condições reais de produzir.
Autores: Felipe Coutinho de Assis e Felipe Chamone Cleres Munayer

