A energia eólica, que já foi celebrada como uma das grandes apostas para a matriz energética brasileira, enfrenta hoje uma série de dificuldades que colocam em xeque sua expansão. Com um potencial natural invejável, graças aos ventos constantes em regiões como o Nordeste, o setor parecia destinado a crescer de forma consistente. No entanto, uma combinação de fatores técnicos, regulatórios e econômicos tem criado um cenário desafiador para as empresas e investidores envolvidos.
As consequências do apagão de 2023
Em agosto de 2023, um apagão deu início a uma mudança de rumo para a energia eólica no Brasil. Um problema em uma linha de transmissão no Ceará desencadeou uma falha em cascata, deixando milhões de pessoas sem energia por seis horas em 25 estados e no Distrito Federal. O incidente expôs fragilidades no sistema, especialmente no desempenho das usinas eólicas, que não conseguiram compensar a queda de tensão como esperado.
O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), responsável por gerenciar o fluxo de energia no país, passou a adotar medidas mais rigorosas em relação às usinas eólicas. Entre elas, o aumento das exigências técnicas e a aplicação mais frequente do chamado curtailment, que limita a produção de energia quando há excesso na rede. Essa prática, embora necessária para manter a estabilidade do sistema, tem sido apontada como um dos principais obstáculos para a viabilidade econômica dos parques eólicos.
Curtailment e seus efeitos no setor
O curtailment não é uma novidade, mas sua aplicação mais intensa após o apagão de 2023 gerou preocupação. Dados da consultoria Volt Robotics indicam que, em 2024, as empresas do setor perderam cerca de R$ 1,6 bilhão devido aos cortes de geração. Além disso, a instalação de novas usinas eólicas caiu 31,25% no mesmo período, passando de 4,8 GW em 2023 para 3,3 GW em 2024.
As empresas argumentam que a falta de indenização pelos cortes obrigatórios desestimula investimentos e compromete a segurança energética do país. Por outro lado, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) defende que os consumidores não devem arcar com custos de energia que não utilizam.
A Concorrência com a Energia Solar
Outro fator que pesa contra a energia eólica é o crescimento acelerado da geração distribuída de energia solar. Com painéis instalados em residências, empresas e propriedades rurais, essa modalidade já responde por 36 GW de potência instalada, superando os 33 GW da energia eólica. A facilidade de instalação e os incentivos fiscais têm feito da solar uma opção mais atraente para muitos consumidores.
Propostas para reverter o cenário
Diante dos desafios, o setor eólico tem buscado alternativas para recuperar sua competitividade. Uma das principais demandas é a revisão dos critérios que determinam os cortes de geração, além da criação de mecanismos de indenização para as usinas afetadas. Outra frente de atuação é a busca por incentivos fiscais para a exportação de equipamentos e o aumento das tarifas de importação de produtos chineses, que dominam o mercado global.
Além disso, o marco regulatório para eólicas offshore, aprovado em janeiro de 2025, abre novas possibilidades para o setor. A legislação permite a exploração de energia eólica em alto-mar, um mercado ainda pouco explorado no Brasil, mas com grande potencial.
FAQ
- O que é o curtailment e por que ele afeta a energia eólica? O curtailment é a limitação da geração de energia pelas usinas eólicas para evitar excessos na rede. Essa prática tem sido aplicada com mais frequência após o apagão de 2023, reduzindo a rentabilidade dos parques eólicos.
- Qual é o papel do ONS no setor eólico? O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) gerencia o fluxo de energia no país, decidindo quais fontes serão utilizadas em cada momento. Após o apagão de 2023, o órgão aumentou as exigências técnicas e a aplicação do curtailment para as usinas eólicas.
- Quais são as alternativas para revitalizar o setor eólico? Entre as propostas estão a revisão dos critérios de curtailment, a criação de mecanismos de indenização e a busca por incentivos fiscais para exportação de equipamentos. O marco regulatório para eólicas offshore também é visto como uma oportunidade para o setor.