A região de Poços de Caldas, em Minas Gerais, retoma seu protagonismo na mineração com o Projeto Colossus, da australiana Viridis Mining and Minerals. A iniciativa está inserida em uma das províncias geológicas mais conhecidas do Brasil e aposta na extração de terras raras em argila iônica, um tipo de mineralização de crescente interesse comercial e tecnológico.
Com uma estimativa de 493 milhões de toneladas em recursos minerais, e uma concentração média de 2.508 partes por milhão de óxidos totais, o projeto figura entre os maiores do mundo no segmento de argila iônica, colocando o Brasil em rota alternativa à China, hoje detentora da hegemonia global desses elementos.
Uma composição valiosa
O foco da Viridis está nos Óxidos Magnéticos de Terras Raras, que incluem neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Esses elementos são indispensáveis para a produção de turbinas eólicas, motores elétricos e equipamentos médicos, e têm sido cada vez mais buscados por governos e indústrias que desejam reduzir a dependência de mercados asiáticos.
O tipo de ocorrência mineral presente no Colossus é particularmente relevante, trata-se de uma argila iônica, na qual os íons de terras raras estão fracamente adsorvidos à matriz argilosa, facilitando sua extração por métodos mais simples, como a lixiviação com sulfato de amônio.
O que é MREO em argila iônica?
Os MREO (Óxidos Magnéticos de Terras Raras) referem-se aos óxidos de elementos com propriedades magnéticas valorizadas pelo setor industrial. Quando esses óxidos estão presentes em argila iônica, significa que não estão incorporados em cristais resistentes, mas sim adsorvidos em partículas argilosas por forças eletrostáticas. Essa configuração permite a mineração por escavação direta, com baixo uso de energia e reagentes, reduzindo complexidade operacional e riscos ambientais.
A separação dos elementos é feita com soluções salinas, que deslocam os íons metálicos da matriz argilosa. Trata-se de um tipo de mineralização que, por sua facilidade de processamento e menor agressividade ambiental, tem ganhado prioridade em diversos projetos internacionais.
Um investimento que atravessa fronteiras
O investimento estimado na planta inicial varia entre 287 milhões e 373 milhões de dólares. A unidade terá capacidade de processar até cinco milhões de toneladas por ano. A primeira produção está prevista para ocorrer entre 2027 e 2028, período que coincide com a escalada mundial por cadeias de suprimento menos vulneráveis no setor mineral.
Com uma proposta de extração em lavra a céu aberto, o projeto é facilitado pela natureza física do minério, eliminando o uso de explosivos e reduzindo a intervenção no relevo. Os resíduos inertes serão tratados por empilhamento a seco, solução que dispensa barragens de rejeitos convencionais.
Tecnologia e reciclagem no mesmo eixo
Para ampliar sua capacidade de fornecimento e processamento, a Viridis estabeleceu a Viridion, uma joint venture com a Ionic Rare Earths. Este braço do negócio atuará com duas frentes distintas, o reaproveitamento de ímãs permanentes provenientes de equipamentos descartados e a separação seletiva dos óxidos extraídos da argila iônica.
A tecnologia aplicada será a RRT (Reciclagem de Ímãs), já utilizada em países desenvolvidos. Somada à SST (Separação Seletiva), a iniciativa poderá responder por até 7% da demanda mundial de óxidos separados. Isso confere à operação uma posição singular em território nacional e cria uma alternativa inédita na América Latina.
Pesquisa mineral com selo universitário
A Viridis também anunciou parceria com a Universidade Federal de Alfenas para a criação do Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras, a ser instalado no campus de Poços de Caldas. O centro deve entrar em funcionamento em 2026 e terá papel técnico na validação de tecnologias e no aperfeiçoamento ambiental do processo.
Com investimento previsto superior a R$ 50 milhões, o CPTR pretende formar mão de obra especializada, operar uma planta em escala piloto e apoiar o desenvolvimento de equipamentos nacionais. A UNIFAL-MG reforça que sua participação está restrita às atividades de pesquisa, sem envolvimento na atividade de mineração.
O licenciamento em ritmo avançado
O processo de licenciamento ambiental do Colossus está em andamento. A Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais recebeu o Estudo de Impacto Ambiental para as Concessões Norte do projeto. A audiência pública ocorreu em maio de 2025, e a expectativa é que as licenças prévias sejam concedidas ainda em 2025.
A proposta de extração com recirculação de 75% da água utilizada, uso de energia proveniente de fontes renováveis e descarte seco de resíduos é considerada compatível com as exigências da legislação estadual. A operação da planta também exigirá avaliação específica para efluentes, emissão de gases e riscos ao solo.
Ganhos locais, cadeias mais amplas
A previsão é de que o projeto crie cerca de 120 empregos diretos na unidade de lavra e mais 40 no centro universitário. Os royalties pagos à União, por meio da CFEM, serão repartidos com os municípios de Poços de Caldas e Caldas, gerando receita adicional para investimentos públicos.
O potencial de estabelecer uma cadeia nacional de valor para os minerais extraídos é um dos aspectos mais observados por setores industriais. A criação de elos entre a mineração, o refino, a separação e a reutilização de terras raras é vista como um diferencial competitivo diante do cenário internacional.
O Brasil no mapa global dos óxidos magnéticos
O protagonismo da China na produção de terras raras ainda é indiscutível, mas a consolidação de projetos com viabilidade técnica fora do continente asiático é cada vez mais acompanhada com interesse. O Colossus surge como um caso emblemático dentro do território brasileiro, não apenas pelo volume, mas pelo modelo adotado.
A proposta de manter os processos dentro do país, utilizando parcerias nacionais, universidades públicas e práticas sustentáveis, é vista com atenção por investidores e analistas. O projeto ainda dependerá de novos aportes e do avanço regulatório, mas as bases estão postas para que o Brasil amplie sua presença na geopolítica dos materiais críticos.
FAQ sobre terras raras e argila iônica
1 – Qual a vantagem da argila iônica na mineração de terras raras? A argila iônica permite a extração dos elementos por lixiviação simples, sem a necessidade de moagem ou britagem intensiva. Isso reduz custos e riscos operacionais.
2 – O que diferencia os MREO de outros óxidos de terras raras? Os MREO possuem propriedades magnéticas essenciais para turbinas, motores elétricos e aparelhos médicos, os elementos mais valorizados no mercado.
3 – Como a reciclagem de ímãs contribui para o projeto? A reciclagem oferece uma fonte secundária de terras raras, reduz a pressão sobre novas minas e amplia a autonomia da cadeia de suprimento nacional.
