Corumbá sediou mais uma edição do Circuito Nacional Diálogos Hidroviáveis, iniciativa da ADECON – Agência de Desenvolvimento Sustentável das Hidrovias e dos Corredores de Exportação, voltada à discussão técnica, ambiental e operacional da Hidrovia Paraguai-Paraná. Em sua etapa internacional, o evento reuniu representantes do Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai com foco na ampliação da cooperação logística e nos mecanismos de viabilidade econômica da navegação interior.
O encontro consolidou a visão de que a hidrovia precisa ser tratada como infraestrutura essencial para o escoamento de cargas e articulação produtiva entre países da Bacia do Prata. Técnicos da Antaq – Agência Nacional de Transportes Aquaviários anunciaram que a proposta de concessão de parte da estrutura logística do trecho brasileiro será votada nas próximas semanas. A medida inclui dragagem pontual, implantação de sinalização e aprimoramento do monitoramento da via navegável.
O projeto não interfere na titularidade do recurso hídrico nem configura privatização, mas visa melhorar os padrões de navegabilidade e reduzir os custos operacionais, que ainda dependem da infraestrutura rodoviária em algumas regiões.
Avanço expressivo na movimentação de cargas
Segundo levantamento apresentado no evento, o volume transportado pela hidrovia do rio Paraguai passou de 800 mil toneladas por ano na década de 80 para mais de 22 milhões de toneladas atualmente. Os dados da Antaq apontam para uma utilização crescente da via, que interliga polos produtivos agrícolas e minerais aos portos de exportação no sul do continente.
Esse crescimento decorre da consolidação da rota como alternativa competitiva ao transporte rodoviário. Além da escala alcançada, a navegabilidade contínua do trecho brasileiro, que vai de Cáceres, em Mato Grosso, até a fronteira com o Paraguai, mostra a importância do canal como parte de uma rede de transporte integrada e menos sujeita a congestionamentos ou custos elevados de manutenção.
Cooperação entre instituições e fiscalização
A Capitania Fluvial do Pantanal destacou o trabalho de fiscalização e segurança nas operações fluviais, que são coordenadas com o Centro de Hidrografia e Navegação do Oeste, responsável pelos levantamentos hidrográficos utilizados na produção das 143 cartas náuticas que embasam a navegação técnica e a sinalização dos pontos sensíveis ao longo do trajeto.
O Dnit – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes participou confirmando seu compromisso com a manutenção da navegabilidade e com a entrega de estudos técnicos que subsidiem a futura concessão. Até sua aprovação, o órgão segue responsável por intervenções emergenciais e monitoramento técnico da operação.
A Marinha do Brasil, também apresentou sua contribuição com o setor de navegação interior como vetor para o deslocamento seguro de cargas em grandes volumes, principalmente em áreas ambientalmente sensíveis como o Pantanal.
Expectativas da concessão e diretrizes ambientais
Um dos pontos centrais das discussões técnicas foi a necessidade de conciliar viabilidade econômica com responsabilidade socioambiental. A concessão da hidrovia está sendo desenhada com metas de sustentabilidade explícitas, baseadas em parâmetros de segurança hídrica, conservação de biodiversidade e monitoramento comunitário.
A Semadesc – Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul defendeu que o projeto precisa atender às populações locais e evitar distorções históricas na distribuição dos benefícios econômicos da atividade portuária.
O município de Corumbá, anfitrião do evento, busca recuperar protagonismo como centro logístico após décadas de evasão empresarial por falta de estrutura adequada. A prefeitura local, em parceria com a Abani – Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior e a Associação de Terminais Portuários Privados, reforçou o apoio ao modelo de concessão como instrumento de reequilíbrio regional.
Hidrovia inteligente e integração multimodal
Avançaram também os debates sobre a implantação de uma “hidrovia inteligente”, conceito que envolve digitalização dos dados de navegação, previsão de cheias e secas por meio de modelos hidrológicos e comunicação automatizada entre embarcações e centros de controle.
Para especialistas presentes, o predomínio do transporte rodoviário no Brasil compromete a eficiência do sistema logístico nacional. A navegação interior oferece menor risco operacional, reduz o consumo de combustíveis fósseis e permite planejamento com maior previsibilidade.
O Governo Federal prevê aportes superiores a R$ 9 bilhões para obras de integração entre os modais hidroviário, ferroviário e rodoviário, o que inclui os trechos citados e passando por terminais já existentes e outros em processo de requalificação.
A diversificação da matriz logística está sendo tratada como item prioritário nos planos de governo, inclusive com articulações internacionais da Hidrovia Paraguai-Paraná.
Perspectivas regionais e ações futuras
A segunda edição do Diálogo Hidroviário em Corumbá contou com mais de 400 participantes e mostrou que a integração de esforços entre governos, iniciativa privada e comunidade científica é possível.
Com mais de 15 encontros presenciais e 10 webinários realizados desde 2017, a plataforma Diálogos Hidroviáveis amplia o alcance da discussão sobre infraestrutura logística. Seu caráter apartidário e técnico vem sendo reconhecido por entidades nacionais e internacionais que acompanham a evolução da navegação na América do Sul.
A expectativa é que, após a deliberação da Antaq sobre a concessão, sejam iniciadas audiências públicas com os principais setores envolvidos, incluindo empresas de transporte, operadores logísticos, ambientalistas e comunidades ribeirinhas.
A decisão final caberá ao TCU, responsável pela análise jurídica e financeira do projeto, com base nos estudos contratados pelo Ministério dos Transportes.
[H2] FAQ sobre a Hidrovia Paraguai-Paraná
1 – Como será feita a concessão da hidrovia? A concessão abrangerá serviços como dragagem pontual, sinalização e monitoramento, mas não interfere na posse ou uso público do rio. Trata-se de uma gestão compartilhada da infraestrutura.
2 – Quais setores econômicos utilizam a hidrovia como rota logística?
A hidrovia é utilizada por diversos setores produtivos que buscam alternativas logísticas mais eficientes para transporte de grandes volumes. Sua operação beneficia desde atividades extrativas e industriais até o agronegócio, contribuindo para a integração entre polos regionais e centros de exportação.
3 – Qual a importância da hidrovia para a logística nacional? Ela reduz a pressão sobre rodovias, amplia a segurança operacional e permite o escoamento de grandes volumes com menor custo ambiental e financeiro, sendo considerada essencial na integração dos modais logísticos.
Receba as principais notícias sobre projetos de infraestrutura assinando gratuitamente o boletim do Infranews. Faça parte do grupo de leitores mais bem-informados do setor, siga nosso perfil no Instagram e acompanhe nossas coberturas técnicas e exclusivas.
