Com a retomada das chuvas intensas, a maior cidade do país segue convivendo com extensas linhas aéreas distribuídas por corredores urbanos sensíveis. O enterramento de cabos, previsto para ampliar a confiabilidade dos serviços essenciais, permanece aquém das expectativas. A Prefeitura de São Paulo aponta que a execução depende da Enel e das empresas de telecomunicações, enquanto estas justificam custos elevados, cronogramas lentos e a complexidade da intervenção no subsolo. No meio desse impasse, a população convive com interrupções, queda de árvores e longos períodos de espera por restabelecimento.
Uma equação que envolve múltiplos setores
A concessionária Enel defende que boa parte da rede elétrica já está subterrânea, contabilizando trechos próprios, enquanto aguarda que o setor de telecomunicações conclua as migrações para permitir a remoção total dos postes. Do outro lado, a Telcomp argumenta que o processo envolve negociações complicadas, interferências não mapeadas, redes clandestinas e trechos com muitas operadoras simultâneas. A Aneel reforça que redes subterrâneas custam muito mais que redes aéreas e que escolhas desse porte devem considerar o efeito direto nas tarifas. O Ministério de Minas e Energia aponta que a responsabilidade é compartilhada, sem previsão de verbas federais específicas para esse tipo de intervenção. O Tribunal de Contas do Município já analisou a situação, destacando a maturidade técnica do tema e os obstáculos operacionais.
Subsolo complexo e múltiplas interferências
Redes de água, gás, esgoto, drenagem, telecomunicações e energia se cruzam em corredores estreitos, repletos de interferências antigas e novas. Essa configuração torna qualquer obra mais lenta, sujeita a descobertas inesperadas e manobras emergenciais. Por isso, trechos que parecem curtos no papel demandam meses de trabalho contínuo, revisões de engenharia e acordos entre empresas com interesses distintos.
Áreas importantes já receberam cabos subterrâneos, como a Alameda Santos, a Consolação, parte da Vila Olímpia, a Nove de Julho, o Gasômetro, a José Paulino e segmentos no Parque da Independência. Regiões como Bela Vista, Higienópolis, Santa Cecília, Santa Ifigênia e Mercadão seguem com obras, revisões de licenciamento ou etapas iniciais de preparação. Mesmo com avanços notáveis em alguns pontos, a soma total ainda é pequena diante dos milhares de quilômetros existentes.
Os benefícios do projeto
A migração para redes subterrâneas oferece ganhos estruturais claros, como:
- menor frequência de quedas de energia durante temporais;
- redução de acidentes com fios soltos;
- menos interferência de quedas de árvores;
- melhor organização urbana;
- valorização do espaço público.
Além disso, a vida útil da rede subterrânea é maior, já que permanece protegida de intempéries e vandalismos. Do ponto de vista técnico, é um modelo mais confiável , porém mais caro e mais lento, e que depende de coordenação entre todos os setores envolvidos.
Para além da estética urbana, o enterramento de cabos reduz o risco de interrupções em hospitais, centros de dados e áreas com alta circulação de pessoas. Em bairros com árvores antigas e vias estreitas, o aterramento representa segurança adicional e menos necessidade de intervenções emergenciais. Em um cenário de eventos climáticos mais intensos, cada metro de rede subterrânea ajuda a mitigar episódios que, ano após ano, afetam milhões de pessoas.
O impasse entre esferas públicas e concessionárias
A Prefeitura argumenta que sua função é organizar cronogramas, fiscalizar e mediar as frentes de trabalho, e não executar diretamente o serviço. Empresas de energia e telecomunicações, destacam custos operacionais, licenças noturnas, falta de mão de obra qualificada e riscos de danos a infraestruturas sensíveis durante a obra. A disputa sobre competências legais entre Município e União adiciona mais uma camada ao problema, dificultando cobranças e fiscalização mais rígidas.
Para quem atua em infraestrutura, a situação evidencia a necessidade de um ambiente regulatório mais claro, com cronogramas públicos, objetivos progressivos e incentivos alinhados. Profissionais do setor veem no enterramento de fios uma pauta urbana essencial, que exige priorização técnica, e não apenas reações a episódios de maior repercussão.
O que pode destravar o avanço
Há caminhos possíveis para acelerar resultados:
- frentes de trabalho contínuas por áreas completas, evitando paralisações;
- acordos mais rígidos entre Enel e empresas de telecomunicações;
- padronização de dutos compartilhados;
- mapeamento moderno do subsolo;
- revisão de processos de licenciamento;
- incentivos municipais para frentes integradas.
Nenhuma solução é imediata, mas a coordenação entre os envolvidos pode construir uma evolução mais sólida.
Reportagem publicada pelo Estadão.
Perguntas frequentes
1 – Como o enterramento de fios pode melhorar o serviço? A rede subterrânea reduz falhas durante chuvas, amplia a confiabilidade e diminui o risco de acidentes nas vias.
2 – Por que o processo é tão demorado? O subsolo é congestionado, há diversas empresas atuando simultaneamente e cada trecho exige planejamento e intervenções cuidadosas.
3 – Qual a função do setor público? A Prefeitura organiza cronogramas e fiscaliza, enquanto as concessionárias executam e financiam as obras sob regulação da Aneel e diretrizes do Ministério de Minas e Energia.
