A recente autorização do Copam-Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais para a ampliação das operações da mineradora Samarco, no Complexo Germano, entre Mariana e Ouro Preto, tem gerado ampla preocupação entre técnicos, ambientalistas e moradores das comunidades afetadas pelo rompimento da barragem ocorrido em 2015.
O licenciamento, aprovado de forma unânime por representantes de órgãos como Semad, Copasa, Codemig, Ciemg, entre outras entidades, autorizou a implementação de um projeto com novas estruturas de disposição de resíduos e ampliação de capacidade de lavra. A análise técnica apresentada considera viabilidade econômica e engenharia, mas enfrenta questionamentos por desconsiderar, segundo especialistas, os efeitos acumulados sobre comunidades vulneráveis.
A iniciativa já começa a gerar debate sobre o cumprimento de marcos legais internacionais, especialmente no que diz respeito à garantia de não repetição de eventos danosos em territórios já marcados por tragédias ambientais.
Cicatrizes invisíveis e o peso da reincidência
Ainda que o discurso institucional evite mencionar riscos diretos, moradores de localidades como Bento Rodrigues, Camargos, Antônio Pereira, Morro d’Água Quente e o Novo Bento Rodrigues já demonstram insegurança frente à movimentação de grandes volumes de estéril nas imediações. O trauma gerado pelo desastre de 2015, que atingiu o rio Doce e seus afluentes, permanece vivo nas famílias que, até hoje, lutam por reparação e estabilidade.
O novo projeto, batizado de “Longo Prazo”, foi classificado por juristas e ambientalistas como uma medida que, ao priorizar critérios econômicos, negligencia diretrizes como a consulta prévia, livre e informada às populações diretamente afetadas. A ausência desse diálogo infringe orientações da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que estabelece como condição essencial à reparação integral o envolvimento comunitário nos processos decisórios.
Proximidade geográfica e reincidência de riscos
Um dos principais pontos levantados em laudos técnicos independentes é a proximidade das novas pilhas de rejeito com corpos hídricos e rotas utilizadas por famílias reassentadas. O rio Gualaxo do Norte, já atingido na tragédia de 2015, corre a menos de 500 metros de algumas estruturas previstas no projeto.
Técnicos alertam que, diante do aumento da frequência de eventos climáticos extremos, como chuvas intensas, a estabilidade física das estruturas pode ser comprometida, ampliando a possibilidade de deslizamentos, colapsos ou transbordamentos.
Além disso, a disposição de rejeitos úmidos, semelhante à adotada na barragem do Fundão, estará presente por mais de uma década nas operações previstas. Ainda que se mencionem condicionantes técnicas para mitigação, a legitimidade do processo de licenciamento permanece sob escrutínio, inclusive por ausência de transparência nas informações disponibilizadas aos moradores e organizações civis.
Quando o passado mina a confiança no presente
A ausência de alternativas técnicas mais seguras para disposição de rejeitos, bem como o modelo de avaliação de riscos adotado pela Samarco, alimentam a percepção de que os interesses econômicos seguem prevalecendo sobre os direitos de quem vive às margens das operações minerárias.
Segundo informações do Instituto Cordilheira, os estudos apresentados pela mineradora teriam ignorado, inclusive, a viabilidade de realocação das pilhas para áreas afastadas das comunidades. A justificativa usada nos relatórios gira em torno de eficiência logística e redução de custos, o que gera forte reação por parte de advogados e defensores ambientais, que exigem maior equilíbrio entre rentabilidade e segurança territorial.
Lições que ainda não sedimentaram
Com dez anos desde o rompimento da barragem do Fundão, espera-se que medidas de recuperação e prevenção avancem, mas a nova licença reacende a sensação de que as dores anteriores ainda não foram aprendidas pelo setor. Mais do que uma crise ambiental, o episódio de 2015 marcou um divisor de águas na maneira como a sociedade brasileira passou a observar a mineração, não apenas como vetor de desenvolvimento, mas como vetor de responsabilidade civil, penal e intergeracional.
O que se vê, no entanto, é um modelo de operação que segue testando limites sociais e ambientais em regiões historicamente negligenciadas.
A urgência de reavaliar critérios de licenciamento
Se há uma mensagem a extrair desse episódio é que modelos antigos de aprovação de projetos não podem ser mantidos em contextos que já acumularam perdas humanas, ecológicas e patrimoniais. A transparência nos critérios, a escuta qualificada das comunidades e o uso de soluções de engenharia seguras não devem ser exceções, mas padrões mínimos.
Projetos com este nível de repercussão demandam análises técnicas e econômicas, além de uma compreensão ampliada de território, cultura e memória coletiva.
Informações extraídas e com base em [Brasil de Fato – 11/07/2025].
Perguntas Frequentes
1 – Por que a ampliação do projeto da Samarco preocupa as comunidades de Mariana e Ouro Preto? Porque as novas estruturas previstas estão próximas de áreas já afetadas no desastre de 2015, com risco de reincidência em caso de falhas técnicas ou eventos climáticos severos.
2 – O licenciamento levou em conta a opinião das comunidades atingidas? Não de forma adequada. Especialistas denunciam que houve falhas na consulta pública e ausência de informações acessíveis às famílias locais.
3 – Existem alternativas mais seguras ao projeto atual? Sim. Há tecnologias e práticas mais eficazes para a disposição de rejeitos, mas a mineradora priorizou alternativas de menor custo, mesmo que menos seguras.
